XuCruTinho
Quinta-feira, Junho 25, 2009
 
ando inquieta. quem está de fora percebe pela minha perna que não pára de balançar um instante e pelas minhas unhas que vivem curtas a força. só. mas para mim, que sou eu e sinto tudo o que eu sinto, é como se eu estivesse no meio de uma gritaria. uma multidão, com milhares de Gabriela's berrando "FAÇA UM MESTRADO!", "BUSQUE REALIZAÇÃO PROFISSIONAL!", "FAÇA ACADEMIA!", "TENHA UMA ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL!", "SEJA MELHOR, FAÇA MELHOR, QUEIRA MAIS, CORRA ATRÁS!". são gritos estridentes dentro de mim, como pessoas vociferando, insatisfeitas com o que eu tenho e com o que eu sou.

e isso me causa uma sensação horrível de que eu deveria estar fazendo alguma coisa que eu não estou fazendo. o pior é que eu não tenho idéia do que é. é como viver com vontade de ir ao banheiro. penso o tempo todo nas milhões de coisas que eu queria ou, pior, DEVERIA estar fazendo e não estou e sinto até dores. minha mente logo organiza uma lista de atividades e, Jesus Cristo, são tantas que a primeira certeza que me vem é de derrota.

a angústia é tão massacrante que às vezes não consigo ficar sozinha comigo mesma. eu preciso fugir desesperadamente, sair correndo, buscar silêncio, um deserto, qualquer porcaria de ambiente que não faça barulho e que não tenha ninguém me dizendo o que eu devo fazer!

é nesses dias que eu chego a jogar quatro horas de videogame sem parar. me interno em jogos de computador alienantes, em vídeos do youtube, em programas de televisão que não exigem nada de mim. aí os dias passam por mim, acenando, dando tchauzinhos, fazendo convites, mas eu nem noto. parece radical, mas me lembra alguém que vive para esperar a morte.

o único de quem não consigo fugir é de Deus. talvez me falte disposição para buscar um Pai que é invisível, no entanto, deixe-me dizer que Ele prevalece sobre qualquer inquietação e sobre tudo o que me ensurdece. meu coração se rende quando Ele me diz: "Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus" - Salmos 46:10. não há motivo para nenhuma preocupação, porque tudo a Ele pertence. ah, como eu quero aprender a fazer dEle o meu refúgio.
 
Quinta-feira, Junho 18, 2009
 
continuo sentindo Deus inquieto na minha vida. porque tudo está mudando, principalmente eu. eu estou mudando. ou sendo mudada. meus pecados têm emergido como cocô de rato em dia de enchente e eu tenho sentido holofotes sendo jogados sobre a minha podridão para que eu possa enxergar direitinho do que eu sou feita. quanto mais perto eu chego de Deus, mais pecados emergem. porque a glória Dele é como um espelho. ou seja, quando eu sei exatamente quem Ele é, eu sei exatamente quem eu sou.

faz sentido?

e é tão estranho porque eu convivi a minha vida inteira com uma arrogância aguda sem sequer notar que ela estava lá. para mim, pensar que eu era melhor do que todo mundo, do que simplesmente todo mundo, sempre foi algo tão natural. e agora, sinto que estou sendo removida desse lodo de autosuficiência, dessa ilusão que é a arrogância. ilusão porque, bom, eu não sou melhor do que todo mundo. pra ser ainda mais sincera, eu não sou lá aquelas coisas. vamos combinar que por mais simpática e divertida que eu seja, se fossem passar num DVD tudo o que eu já fiz e tudo o que já passou pela minha cabeça, eu nunca mais sairia de uma gruta qualquer da zona rural da cidade.

bizarro é pensar que Lúcifer cometeu erro semelhante. achou que não precisava de Deus. foi condenado e para ele não tem volta. para mim, há uma chance por meio de Jesus Cristo. como não se apaixonar por um Deus assim?

im-pos-sí-vel.
 
Domingo, Dezembro 14, 2008
 
Os meus dias de angústia começaram depois de um jantar na casa do meu pai. Lá pelas tantas, a mulher dele, do nada, me disse: “Você sabe da última novidade do seu pai, Gabriela? Agora ele é ateu”. Eu olhei para o meu pai em choque e ele estava rindo. Disse: “Querida, eu não sou ateu, eu só não acredito mais em Deus”. Aquilo pra mim foi como perder o chão. Eu conheço muita gente que se diz ateu, mas o meu pai? Ele, que sempre me escrevia cartas quando morávamos em cidades diferentes, dizendo para eu nunca deixar de “rezar”, porque Deus era muito importante, justo ele não acreditava mais.

Levada pela não aceitação do fato, tomei a pior decisão da minha vida: resolvi argumentar. A discussão começou comigo questionando como ele poderia não acreditar mais em Deus. O debate durou cerca de uma hora e fez um estrago em mim. Meu pai tinha acabado de ler a Superinteressante, que é uma revista que trata de temas religiosos sempre com um leve tom de “quem acredita em Deus é retardado”, e outros livros nessa linha, então ele estava com os argumentos fresquinhos, louco para desfilar com eles pela sala e, de preferência, sobre a minha dignidade. Além dos comentários super “científicos”, ele fez aqueles velhos questionamentos como “então como você me explica um Deus que deixa tantas pessoas passarem necessidade? Hein? Você acha que elas estão sendo castigadas por algum pecado que cometeram?”. É claro que eu não sei responder a esta pergunta. A verdade é que ninguém sabe, nem os cristãos, nem os ateus. E é exatamente por isso que eu acho que ela só reforça a existência de Deus, porque há um mistério nesta vida, um quê de inexplicável na ordem natural das coisas, onde a lógica fica marginalizada, e, pra mim, torna audível a voz do Criador.

Só que na hora, ali, discutindo com o meu pai, eu quis ter uma resposta. A arrogância e o desprezo com que ele falava sobre o invisível me fez desejar dizer algo que o calasse, que o fizesse ter um pouco mais de respeito pelo o que ele não enxerga. Mas é claro que eu não consegui porque, como eu disse antes, nessas discussões a lógica fica um pouco de lado. É sobre fé que nós estávamos discutindo, ainda que meu pai dissesse que não. Quando você diz que não acredita em alguma coisa, você está dizendo que não tem fé naquilo. “Eu não acredito que não existe. Eu tenho certeza”, meu pai falava, como se o fato de ele ter esta certeza fosse o suficiente para apagar a existência de Deus.

O meu irmão também me olhava com a mesma cara de deboche e trazia argumentos com arrogância para a mesa. No calor das tentativas de me provar como eu era ingênua por acreditar em Jesus, eles me chamaram de burra e riram muito de mim.
Aquela discussão me magoou demais. E abriu uma ferida no meu coração. Voltei a sofrer com a importância que eu sempre dei para as opiniões do meu pai e me peguei questionando as coisas em que acredito. Uma noite, dois dias depois do acontecido, voltando do trabalho, eu não conseguia parar de pensar em tudo o que meu pai e o meu irmão haviam dito pra mim. Comecei a perguntar pra Jesus porque ele tinha deixado aquilo acontecer, porque Ele não fez algo pra provar que existe, porque ele não fez nada. No carro, pensando nisso, fui ficando confusa e resolvi fazer uma oração. Mas imediatamente comecei a chorar ao perceber que já não tinha mais tanta fé nas coisas que eu estava dizendo. Então dirigindo, gritei aos prantos, “Senhor!! Por que o Senhor está deixando isso acontecer?? Eu estava feliz, Deus, crendo no Senhor!! Por que o Senhor não fala nada?”. Chorava e gritava muito. Foi horrível.

Esse caos durou 3 dias. Três dias intermináveis.

Depois que eu me acalmei, vi que, o que me irritou, foi ter sido, mais uma vez, rebaixada pelo meu pai e pelo meu irmão por simplesmente ser como eu sou. Não vou mentir, ainda estou muito magoada com eles. Não diretamente, pensando coisas como “agora eles vão ver só”, mas é algo sutil, que me deixa intolerante com os acessos estúpidos de “eu sei absolutamente tudo” dos dois, impaciente só com a presença deles, indiferente a necessidade de fazer a manutenção do vínculo familiar por meio de perguntas como “você não me parece bem, o que houve? Posso ajudar?” e “que dia você viaja para os Estados Unidos?”. Eu simplesmente parei de me importar, esfriei sem querer esfriar. Meu irmão, que mora comigo, pegou o vôo para outro país e eu fiquei sabendo no dia em que cheguei em casa do trabalho e ele estava indo para o aeroporto.

Mas é lógico que não me orgulho de nada disso. O pior é que depois daquele jantar na casa do meu pai, tudo mudou. Foi como descobrir que eu, na verdade, nunca convenci ao meu Deus com a minha “vida espiritual” porque eu não era uma cristã de verdade. Nunca fui! Cheguei a pregar em presídios sobre o amor dEle, era líder do grupo de oração das meninas na igreja... Mas hoje eu vejo que era como se eu tivesse uma identidade secreta, paralela a de crentinha, em que eu era uma pessoa impiedosa, arrogante, que manipulava diversas situações para ninguém ver os meus pecados. Só que eu não sabia disso. Juro pra você, eu achava que estava fazendo o melhor, que eu tinha um super relacionamento com Jesus, mas... Eu não tinha. Era tudo um grande esforço, não era genuíno. Eu só me esforçava para ser uma cristã, nada mais, pouquíssimas coisas eram transformações verdadeiras de caráter.

Paralelo a isso, eu ainda descobri que tenho muitas mágoas remanescentes do meu pai e do meu irmão, mágoas que eu jurava que já tinha resolvido e até saía por aí discursando sobre perdão.
Além disso, tudo isso me surpreendeu com mais uma novidade: depois daquele jantar, eu, na verdade, não duvidei que Deus existe, eu duvidei que Ele se importa. Duvidei que Deus liga para nós de verdade, que nos ama incondicionalmente. Porque no fundo, eu sempre vi Deus como um Pai que vai nos fazer sofrer, tirar de nós o que gostamos, ignorar nossos sonhos, nos cobrar com severidade a perfeição e só caso a conquistemos é que Ele nos deixará viver. Exatamente como o meu pai sempre fez. Quer dizer, eu não duvidei de Deus. Eu apenas lhe transferi a pessoa do meu pai e comecei a acreditar que Deus se comportaria como o homem que me criou. E me machucaria.

Então, aquele dia no jantar, um sentimento de incredulidade não foi gerado em mim. Ele já estava lá. E essa é a pura verdade. Puxa vida, Jesus sempre soube disso, o que triplica a minha vergonha. Só de lembrar de mim fazendo pose de santinha me dá vontade de esfregar meus dentes no asfalto. Quem é que eu estava tentando impressionar, Jesus?

Agora tudo está bem diferente na minha vida. Eu não sei mais direito quem eu sou, partindo do principio que eu escondi por muito tempo as minhas falhas e misérias. Antes eu lia a Bíblia crendo que o Espírito Santo me faria grandes revelações, só para eu chegar na minha igreja e contar para todo o mundo o que Deus andava falando comigo. Hoje é diferente. Eu simplesmente leio, tento aprender e oro com a maior sinceridade possível, sem me achegar de roupa de gala e sapato de salto ao meu Deus, que esquadrinha meu coração.

Também tenho falado menos sobre os meus “conhecimentos teológicos”, aquelas coisas de ficar comentando o que Deus quis dizer em tal passagem da Bíblia, as incríveis teorias sobre a Cruz e a salvação garantida a todos por Jesus Cristo por meio do seu sacrifício de amor. Perdi totalmente a vontade de ficar desfilando com as minhas opiniões. Quando se iniciam discussões assim em meio ao meu grupo de amigos, me afasto. Eu me desinteressei por isso, o que é bem estranho se eu lembrar que amava falar em público e sentir que todos prestavam atenção no que eu estava dizendo. Grande cristã essa que cuida da sua vaidade como uma planta num vasinho.

Em tradução, enjoei de ser o que meu pai me ensinou a ser, uma sabe-tudo de nariz empinado, e decidi refletir mais sobre a minha verdadeira identidade. Com a humildade de saber das minhas fragilidades e o quebrantamento de entender que eu preciso de Deus. O próximo passo é compreender que o meu pai e o meu irmão são dignos do mesmo amor e tentar colocar em prática o que Jesus ensinou de tão lindo na Bíblia.

É... Deus tem os seus métodos.

O cronômetro foi zerado para mim. Depois de tanto tempo caminhando, vi que boa parte da trajetória eu andei com a firmeza de uma orgulhosa e presunçosa, e não de uma apaixonada por Cristo. Algo como diz em Hebreus 5:12 (e eu cito esse versículo sem a menor pretensão de nada, a não ser de explicar como me sinto). Diz assim: “Embora a esta altura já devessem ser mestres, vocês precisam de alguém que lhe ensine novamente os princípios elementares da palavra de Deus. Estão precisando de leite e não de alimento sólido!”. E continuo com o versículo 14: “Mas o alimento sólido é para os adultos, os quais, pelo exercício constante, tornaram-se aptos para discernir tanto o bem quanto o mal”.

Não vou mentir. A sensação de descobrir que você é uma farsa passa longe do agradável. É incrivelmente humilhante, mas sabe... Nesse momento, tudo o que eu tenho pensado é que a minha humilhação não deve ser assim tão ruim. Porque, nesse caso, o que me envergonha, glorifica a Deus. Mas não aquele Deus formal, bravo, como eu visualizava. Estou aprendendo a amar um Pai que trata conosco no profundo, que não deixa as nossas mentirinhas e pequenos fingimentos, criados para nós nos adaptarmos melhor a sociedade e que por muitas vezes nos machucam, passarem batidos. Um Deus que é de verdade e que, por mais que eu não entenda tudo sobre ele, me ama mesmo eu sendo uma completa idiota.

Não importa mais quem eu vou ser amanhã, eu só gostaria de todo o meu coração que fosse verdadeiro e que agradasse ao meu Jesus querido. Que ele viva através de mim e nesse processo, me dê a honra de ser meu amigo. Porque pior não é desacreditar em Deus. É pensar que Ele existe, mas se comportar como se não precisasse dEle. Isso sim o magoa.

E para aquela pergunta clássica “aonde é que está Deus?”, hoje eu respondo: Ele está onde sempre esteve. Onde é que está você.

...Gaby
 
Domingo, Setembro 14, 2008
 
fui tomada por uma atmosfera fitness. resolvi sair do sedentarismo e praticar natação. eu só não contava que meu cabelo ficaria duro que nem um pau. os cabelinhos do cucuruto, afe, estão como aquelas terras de xaxim, onde se coloca samambaias.

mas há coisas que compensam.
por exemplo, viciei em esfoliante. meu pé andava meio cascudo, comprei um creme esfoliante para pés e, tá-dá!, meu pé está super macio. antes, eu estava até desfiando as meias finas, totalmente rústico, tipo cadeira de junco ratan.

agora estou a procura de um milagre para os meus cabelos. ainda não fizeram shampoos esfoliantes, então eu sigo a minha trajetória angustiada.

as unhas vão bem, obrigada.
 
Segunda-feira, Março 31, 2008
 

Eu e minha mãe fazendo palavras cruzadas. Dúvidas surgiam, ela berrava do quarto dela pra mim. Dúvidas surgiam, eu berrava do meu quarto pra ela.

Então a pergunta que me surgiu era: dois países da América Latina que ficam na América Central. Logo berrei:

- Mãããe, só conferindo: Cuba é na América Central, né?
- Não, Cuba é na América Latina.

- Dona Solange, toda a América Central é América Latina.
- Claro que não, Gabriela!
- Jesus mulher!!! Claro que sim!!
- Gabriela, que América Central! Você quer dizer a América do Sul.
- Mulher de Deus, a América Central, aqueles paisinhos que ficam no meio das Américas do Sul e do Norte, com aquelas ilhinhas.
- Cuba fica na América Latina e não na América Central. que América Central é essa?
- América Latina é todos da América do Sul (menos Suriname e Guiana Francesa eu acho), Central mais o México.

- E México lá é latino, Gabriela!!
- JESUS CRISTO!

 
Segunda-feira, Março 24, 2008
 
eu na época que fiz a minha tatuagem não tinha muito o pensamento que eu tenho hoje. era meio sem noção. a questão é que se fosse hoje, eu não faria. por isso eu não aconselho ninguém a fazer tatuagem, porque como qualquer coisa nessa vida, você se enche daquilo ali e você simplesmente não pode passar uma água e tirar. porque o negócio não sai. aí você tem que andar por toda a sua vida com um desenho cravado na sua pele que simboliza uma época que você não está mais vivendo, que simboliza um pensamento que você já não tem mais, que simboliza idéias que você já superou. é andar por aí com um passado besta dando tchau pra todo mundo. não faz o menor sentido. se eu pudesse, eu tiraria. não porque ela ficou feia, mas porque tatuagem tem um significado. sempre tem. quando eu fiz as cerejinhas, eu quis fazer por diversos motivos. e esses motivos hoje pra mim são estúpidos, que não valem um desenho na minha pele que não vai sair nunca mais.

fora que dói MUITOOOOOO! antes de eu fazer a tatuagem, perguntei pra um monte de gente se doía e todo mundo falava "dói nada! é umas picadinhas só". MEN-TI-RA! gente, dói pra burro! é quase insuportável! horrível!

ah, e outra: hoje em dia todo mundo tem tatuagem. o diferente em breve serão as pessoas que não tem. na minha opinião já são. por isso, se você pensa em fazer tatuagem, pense muito bem. vai parecer super legal no início, mas depois que passar um tempo você vai começar a achar que aquele desenho já não combina mais com quem você é. porque a gente muda e o desenho não.

assim são com pessoas que eu por muito tempo levei comigo na minha vida.
perdi muito tempo com quem não queria compromisso. porque era cômodo, mais fácil, conveniente... sei lá. é como a tatuagem. tipo carregar na sua pele algo que já não vale mais ser carregado, um momento que já passou e talvez você esteja insistindo nos restinhos que ficaram. a diferença é que essa tatuagem de relacionamento a gente pode tirar, mas às vezes escolhemos permanecer com elas. como que pode...? gente que me sufocou e eu simplesmente não tirei de mim quando deveria.

bom, mas aí eu tomei vergonha e disse adeus pra encontrar alguém com quem eu realmente queria estar, alguém que valesse a pena cravar na pele. foi a melhor coisa que eu fiz. dá pra dizer que hoje estou feliz.
 
Domingo, Março 09, 2008
 
acho que desde que eu era um feijão eu tenho essa dúvida. uma dúvida existencial. porque convenhamos, a vida é cheia de armadilhas. é como a história daquela amiga que conheceu um cara perfeito e gentil, inteligente e de boa família, com um futuro profissional brilhante, e ele se apaixona por ela, promete mundos e fundos e ela também se apaixona porque ele é simplesmente incrível. a partir daí, duas coisas podem acontecer (basicamente, claro, afinal o ser humano é um pouco mais complexo do que "alternativa a e alternativa b"): eles se casam e são muito felizes entre um pepino e outro ou eles se casam e ela descobre que não é bem isso. ok, vamos acrescentar uma alternativa c. eles se casam e o cara bonitão vira um é ciumento psicótico que faz da esposa uma prisioneira do próprio lar. uma alternativa d também cabe aqui. ele e ela engordam uns 18 quilos e viram um casal de obesos cuja maior alegria é fazer campeonatinhos para ver quem consegue comer todo o cardápio do Burguer King.

pois é, a vida, pelo menos a minha, é assim. dúvidas corrosivas.

porque existem essas armadilhas, elas estão espalhadas por todos os lugares e elas podem manchar meu futuro e eu não terei a quem culpar senão a mim mesma. parece tão estúpido isso tudo, porque eu poderia simplesmente dizer "ahquesedane! eu vou viver e pronto!", mas... eu não consigo! quer dizer, não dá! porque não tem volta! vai soar idiota, mas eu senti isso quando fiz uma tatuagem. precisa ser lindo porque eu vou olhar pra ela por toda a minha vida.

só que na vida eu... eu disponho somente da minha capacidade precária e limitada de julgamento pra me auxiliar. me fala, não é de se desesperar?

e por favor, não resolve em nada dizer aquelas frasesinhas nissin miojo (três minutos está pronto) do tipo "mas se não fosse assim, não teria graça". sinceramente, eu não acho muito engraçado não ter a menor idéia de qual caminho seguir. quer dizer, vai saber? o que escolher?

eu não sei o que fazer.
e é por isso que, por enquanto, eu não vou fazer nada.
 
Sábado, Março 01, 2008
 
válidas orientações

Carla: e vc, o que escreveu hj pra eu ler?
Gabriela: nada minina. eu não parei um minuto. eu tenho que pensar o que vai ser do capítulo 24. eu só sei que vai sobre zac e mary. eles estão meio sumidinhos.
Carla: ah eu acho q tá equilibrado
Gabriela: e eu não sei (PRA VARIAAAR LÁ LÁ LÁ) como eles vão conversar sobre eles e tal. precisa de um super diálogo revelador. e confuso. drama drama drama.
Carla: mas eu achei que a sua personagem tinha dado uma repensada depois da conversa com a bianca.
Gabriela: então, mas ela precisa manifestar isso! e eu não dei nenhuma chance pra ela o fazê-lo. hehe. só que eu não sei como isso vai acontecer. tem que ser genial. e simples.
Carla: aff, que dificil hehehe.
Gabriela: AAAA eu sou a pior escritora do mundo, cara!!!
Carla: hahahahahaahaha.
Gabriela: duvido que os escritores são como eu, desorganizados!!
Carla: hahahaha. ai gaby.
Gabriela: cara, quem é que começa uma história sem ter IDÉIA de onde ela vai parar??
Carla: vc tem ideia sim, você já sabe tudo, só que tá escondido, vc vai descobrindo conforme vai escrevendo.
Gabriela: se eu fosse famosa e um jornalista me entrevistasse e me perguntasse: "e então Gaby, todo mundo quer saber: o casal vai ficar junto?". e eu diria: "minina, eu também não sei! o que você acha? me ajuda aí, dá um palpite". afe ¬¬.
Carla: vc ia responder "eu ainda não descobri, pq pra mim escrever é um processo natural. eu não prendo minha arte em caminhos pré-estabelecidos. meus personagens são livres"
Gabriela: mmm um jeito chic de dizer que sou desorganizada!
Carla: e ae td mundo ia dizer "ooooh". e o seu estilo de escrita ia ser discutido nas universidades. seria um fluxo de consciencia com coesão. pq o pensamento é cheio de paradoxos.
Gabriela: uau...
Carla: ia ser um sucesso.
 
Sábado, Fevereiro 23, 2008
 
continuando com os emails de amigas que sofreram por caras galinhas. esse é de novembro de 2002. é impressionante como alguns dramas da vida se mantêm atuais. divirta-se.

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Bom, eu não sei o que exatamente eu te contei por último a respeito da minha situação com o Rodrigo. eu acho que te contei que a gente pra jantar e comemorar o meu aniversário e que foi lindo, mas não rolou beijo *porque eu não achei que era o momento*. Muita coisa aconteceu depois disso. Nós continuamos no mesmo esquema. Com altos e baixos... Eu vou te contar os últimos episódios pra você ver a que pé que a gente anda.

Na semana passada, o Rodrigo estava todo esquisito. Ele olhava pra mim e começava a rir. Mas assim, ele ria mesmo. Como se estivesse com o riso frouxo. Parecia meio malandro. Na segunda foi assim, na terça também. Ele vinha me abraçar, me beijar, me dar oi, e dava risada. Ele já vinha rindo me cumprimentar. Eu perguntava o que era e ele respondia: "eu estou apaixonado, Vanessa". Eu: "por quem?". Ele: "Por você, ué". Eu não engolia. Era como se ele estivesse planejando alguma coisa. E ele estava meio malandro, parecia que estava debochando. O Rodrigo se declara pra mim o tempo todo, mas nessa semana passada, a semana malandra, ele estava fazendo isso de um jeito... Malandrão. Eu perguntava: "E aí, Rodrigo, tudo bem com você?". Ele: "Tudo ótimo, Vanessa, tudo maravilhoso, porque eu estou apaixonado por você..." e ia longe. O Rodrigo também vive me olhando. Aí quando eu olho, ele me manda um beijo. Mas nessa semana, até isso ele estava fazendo de um jeito malandro. Eu não estava gostando daquilo.

Aí na terça à noite eu fui à psicóloga. E sabe que quando a gente vai a psicóloga, a gente fica bem resolvida por uns dias. Cheguei na quarta-feira indignada com ele. Quando ele entrou pra me dar oi, já entrou rindo. Eu levantei pra cumprimentar e ele disse, rindo: "aaaa Vanessa! Não era pra você levantar". Eu: "Mas por quê?". Ele: "Porque eu tinha uma surpresa pra você" e ria mais. Aí me enchi: "Rodrigo, pára! Eu não estou gostando desse teu jeito todo malandrão! Não gosto! E mais: esse teu tipo não me convence". Aí ele ficou sério porque viu que eu estava mesmo irritada. E disse: "Malandro? Mas eu não estou malandro". Eu: "Está sim! Você não pára de rir! Parece que está debochando". Ele: "Eu não estou debochando, Vá". Enfim. Aí a gente ficou quieto e eu perguntei: "por que não era pra eu levantar?". Ele: "Porque eu tinha uma surpresa pra você". Eu: "Pronto, estou sentada de novo. Pode me dar a surpresa". Ele: "Não, tem que ser de primeira. Amanhã eu faço". Eu: "E por que eu tenho que estar sentada?". Ele: "Pra não cair de susto". Eu: "Mmm... E eu vou gostar da surpresa?". Ele: "Vai". Eu: "Muito?". Ele: "Muito. Quer dizer, você pode não gostar também".

Sabe, Gaby, o Rodrigo não é do tipo que faz esse suspense todo e chega no outro dia com uma florzinha. Eu tinha certeza de que ele ia me dar um beijo. Fiquei super nervosa. Mas tentei não pensar tanto, não ficar programando reações. Deixei pra ver como eu reagiria na hora, pra ser espontâneo.

Ele sempre aparece no meu setor lá pelas duas da tarde, que é o horário que ele chega pra trabalhar. Nesse dia da surpresa, ele chegou às três. Provavelmente ficou se enrolando porque estava hesitando sobre o que ia fazer. Só sei que quando deu três da tarde, ele entrou no estúdio todo decidido. Eu fiquei só olhando ele chegar. Gaby, ele veio seco pra me dar um beijo. Mas na hora H, não teve coragem. E beijou do lado da minha boca. Mas assim, um beijão demorado e gostoso, sabe... Aí enrolou os braços no meu pescoço e escondeu o rosto no meu pescoço. Eu achei engraçado a covardia fofa dele. E perguntei: "O que foi Rodrigo?". Ele: "Nada não". Eu: "Cadê minha surpresa?". Ele: "Ah, era isso", se referindo ao beijo bem dado que ele me deu". Como eu vi que ele não queria falar muito do assunto, deixei quieto. Ele ficou ali, fazendo massagem em mim e me olhando.

Ele teve medo, Gaby, porque ele sabe, mesmo na ignorância galinha dele, que quando a gente se beijar, vai significar alguma coisa até pra ele. E o medo dele não é que, depois que ele me beijar, eu vá cobrar dele "agora que você me beijou, a gente vai ter que namorar, você vai ter que ser só meu". O medo dele é que ele queira ser só meu por livre e espontânea vontade.

Daí tá. Depois disso, ele tentou mais algumas vezes, mas não teve coragem.

Aí nessa sexta, dia 12 de novembro (só pra você se situar), ele estava um doce. Só que como eu já te contei, o Rodrigo às vezes tem crises. Tem dia que ele resolve que não quer mais sentir nada. Que ele quer voltar a ser só um cara galinha, sem gostar de mulher nenhuma. Numa dessas crises, ele já chegou a me chamar de irmãzinha. Eu sei, ridículo. Porque se tem uma coisa que nós nunca fomos é amigos. Nunca. Nada de "meu amigão Rodrigo". Nunca foi assim entre a gente. Aí nessa sexta, ele teve uma crise dessas. E quando ele tem isso, ele começa a querer me provar o quanto ele não presta. Aí ele me conta coisas sexuais cabeludas que ele já fez e profere frases machistas e cretinas.

Aí eu estava lá com ele e o Carlão, assistente administrativo. Antes de eu trabalhar lá na empresa, o Carlão era tipo o melhor amigo porcão do Rodrigo. Eles trocavam confidências sujas e conversavam coisas do tipo "nesse final de semana, comi Fulana" e "nooossa cara, que tesão! A Fulana que eu peguei era mó gostosa". Aí eu cheguei na empresa e o Rodrigo parou de dar tanta atenção para o Carlão e começou a dar mais atenção pra mim. Tipo, o Rodrigo passou a dedicar a maior parte do tempo pra mim, pra conversar comigo, pra ficar comigo, e deixava o Carlão totalmente de lado. E o Carlão por muito tempo teve raiva de mim por causa disso. Hoje ele gosta de mim, mas de vez em quando ainda me cutuca. Enfim. Aí estava eu lá no setor deles com o Rodrigo e o Carlão (eles trabalham na corregedoria e eu no recursos humanos), quando o celular do Rodrigo tocou. Ele: "atende pra mim, Vanessa, por favor e vê quem é". Eu olhei: "Não quero mais fazer isso, Rodrigo".

Pausa pra explicação: o Rodrigo come as gurias e depois elas ficam ligando pra ele, atrás dele desesperadas, só que daí ele não quer mais. Só quer comer e tchau. E por algum motivo, elas se apaixonam por ele. E uma vez ele pediu pra eu atender o celular dele porque era uma garota de quem ele estava fugindo. Eu atendi e, nossa, fiquei super sem jeito, me arrependi na hora. A garota ficou lá, achando que eu era namorada, sei lá, toda tímida e eu morrendo de vergonha, tentando ser simpática com a garota. Foi horrível. Eu desliguei e meti a boca no Rodrigo: "Nunca mais pede pra eu atender o seu celular! Os seus pepinos você resolve, não larga na minha mão! Nunca mais faz isso". Ele ficou todo perdido e essa foi a primeira vez que ele me pediu desculpas com todas as letras. Burra eu que atendi. Mas enfim.

Aí ta, a gente lá, ele pediu pra eu atender o celular, eu não quis e ele não atendeu. O Carlão nesse dia estava me cutucando, então já riu da minha cara quando eu falei que não queria mais fazer isso. Riu dando a entender "hahaha, a secretária do Rodrigo". Bom, aí deu um tempo, chegou uma msg no celular do Rodrigo. Ele olhou pra mim e fez cara de "ai", rindo. Eu perguntei o que foi e o Rodrigo leu em voz alta: "Na hora do bem bom, você é homem. Na hora que eu preciso de você, você some". Uma tal de Rebeca mandou pra ele. Eu revirei o olho, achando absurda a postura do Rodrigo. Ele: "Ah Vanessa! Comigo é assim". Eu argumentei com ele um tempo, dizendo que ser homem era bem mais do que aquilo e ele, no ápice da crise, disse que com ele era assim, que ele comia todas e não sei o que. Nessas alturas, o Carlão estava indo ao delírio, claro. O Rodrigo é o ídolo dele. O sonho dele é pegar mulher gostosa com o mesmo desprezo e na mesma quantidade que o Rodrigo pega.

Eu perguntei por que a garota tinha escrito aquilo e o Rodrigo disse, imitando uma criança choramingando: "Ai Rodrigo, você me comeu e agora não quer mais nada comigo. Ah! Por favor! Eu não sou psicólogo". Eu disse: "Tá, o que você falou pra essa garota pra ela estar atrás de você assim?". Ele: "Eu deixei tudo bem claro desde o começo. 'Ó, você quer me dar, beleza. Mas já aviso que eu não quero compromisso'. Comi e agora ela tá aí, choramingando, dizendo que eu sou insensível. Porra, tô errado?". Assim, Gaby, eu não vou defender a menina porque só fazem com a gente o que a gente deixa. E o Rodrigo é mesmo muito direto, ele faz questão de deixar bem claro o que ele pensa. Ele não tem vergonha de ser como ele é. Mas pô! Precisa ser tão porco assim?!

Fiquei super chateada. Então chamaram o Rodrigo, ele deu uma saída, e o Carlão, que estava indo ao delírio com a porquisse tão explícita do Rodrigo (e também porque o Carlão sabia que, com isso, o Rodrigo estava me decepcionando), disse: "O Rodrigo tinha que deixar bem claro pra essas mulheres que ele só quer comer o rabo delas". Olha isso. "Como ele quer fazer com a garota aqui da corregedoria". Eu: "Que garota?". Ele: "Ih, opa, falei demais", como se ele realmente tivesse deixado escapar. Mentiroso. O Carlão já mentiu várias vezes pra me deixar brava ou com ciúmes do Rodrigo. E eu e o Rodrigo sempre brigamos quando o Carlão faz isso. O Carlão adora ver a gente brigar. Mas ao mesmo tempo, pode ser que o Rodrigo esteja querendo dar um trato em alguma garota que trabalha lá na firma porque ele é porcão. É tipo 50% de chances pra cada coisa. Pode ser mentira do Carlão, como pode ser verdade. Aí quando o Rodrigo chegou, eu perguntei da garota. O Rodrigo disse que era mentira, meio rindo com o Carlão. Porque assim, o Carlão influencia o Rodrigo com muita facilidade quando ele está nessas crises de não querer sentir nada. Aí eu me irritei e saí.

Nesse dia eu ia embora de carona com o Rodrigo. Falei pra ele que ia esperar ele lá embaixo. E desci.

O Rodrigo chegou acompanhado de um amigo nosso, pra dar carona pra ele, com medo que de ficar sozinho comigo porque achou que eu ia estar brava. Mas como que eu ia ficar brava, Gaby? Eu não tenho nada com o Rodrigo. E não era eu quem ele tinha comido e largado na rua da amargura. Na verdade, o que acontece é que esse lado Jorge Tadeu Saddam Hussein do Rodrigo me assusta muito. Ele parece esse Dom Juan terrorista, que quer pisar nas mulheres e acabar com todas elas. Como se ele quisesse provar pra ele: "AÍ Ó, TÁ VENDO?! EU NÃO PRECISO DELAS! EU NÃO SINTO NADA, EU NÃO AMO NINGUÉM!". Ele chegou e perguntou pra mim: "Ta brava comigo?". Eu: "Não, ué". Aí eu fico quieta, não porque eu estou brava, mas porque eu estou pensando. Pensando nesse lado horroroso do Rodrigo. Ele chegou no carro já arrependido. Ele tem a crise e se arrepende. Aí ele quer me conquistar de novo. Fica todo cuidadoso, tentando me agradar, perguntando coisas.

Ai Gaby... que saco, viu. Eu gosto do Rodrigo, mas é nítido que não é pra ser. Eu estou morrendo de vontade de beijá-lo, mas o que eu faço com as 14 toneladas de insegurança que vou sentir depois do ato? Eu vou ficar paranóica pensando se ele vai me esnobar, se ele vai ter uma dessas crises de novo. Ai, eu estou pedindo ajuda pra Deus, porque eu sei que Ele não quer que eu fique com o Rodrigo. Quer dizer, ele é um doce, ele é lindo, ele é original... Eu gosto muito nele. Mas não dá! Eu não posso lidar com isso. Eu não posso estar com alguém que quer matar e destruir todas as mulheres do mundo. Tudo bem ser galinha, mas poxa, o mínimo de caráter. Gente, o mínimo!

Não sei, Gaby... Estou tão perdida. Eu cheguei em casa nessa sexta e caí no sofá de cansaço físico. Cansaço de me segurar perto dele, de querer beijá-lo e não poder, de ficar quebrando a cabeça, arrumando formas de me afastar dele, de lutar contra a minha vontade de voar no colo dele e mordê-lo inteiro, de me decepcionar com essas crises maléficas do Rodrigo. Eu estava completamente pregada. Eu não agüentei chegar na minha cama. Caí no sofá mesmo. E chorei. Chorei o que eu estava segurando por meses. Eu parecia aquelas loucas chorando. Quem visse, ia achar que eu ia estar tendo um enfarto. Eu chorei, chorei, chorei muito. Me derramei. Pedi socorro pra Deus porque eu gosto do Rodrigo, Gaby. E eu sei que ele gosta de mim. Eu vejo o quanto ele sofre também porque fica confuso, quer me beijar, mas sabe que não pode porque o que eu quero ele não pode me dar porque não está preparado. Porque a vida sentimental dele é muito imatura. A ponto de ele ter chiliques absurdos de ciúmes e nem se tocar que está sendo ridículo. Ele tem as demonstrações mais primárias do que está sentindo. É assim porque pra ele é novo. Ele não está com comportamentos automáticos, não possui vícios ainda, que a gente acaba pegando com o tempo, a medida que vai gostando de pessoas e tomando na cabeça.

Ai Gaby... Que saco, viu... Duzentas mulheres querendo dar pra ele e eu aqui, querendo casar virgem. É muito diferente. Não tem como ir pra frente. E como eu sofro...

Beijo, amiga.

Vanessa

 
Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008
 
Querida Gaby...

Lendo o seu blog, quis contar o que aconteceu comigo há um tempo atrás, quando me apaixonei por alguém que não era pra mim.

Eu entrei onde trabalho hoje como estagiária. Eu estava no último ano da faculdade e ficava lá só de manhã. Chegava às seis e meia da manhã, pra ajudar a minha chefe e saía sempre 13h30. Uma das minhas tarefas era organizar uns relatórios do que foi feito pela equipe da manhã “para o Juliano”, a minha chefe dizia. Eu digitava no topo da página “PARA O JULIANO” e escrevia o que tinha que ser escrito e imprimia. Deixava o papel sobre uma mesa lá na redação pro tal Juliano pegar e ia pra casa.

Claro que eu perguntei quem era o Juliano, por curiosidade. “É o produtor da tarde”, minha chefe disse. Beleza.

Bom, como eu era uma moça muito muito esforçada, comecei a ficar o dia inteiro na empresa. Comecei a me encher de coisa pra fazer, me oferecer para outro monte de coisas, até que, quando eu vi, eu estava trabalhando até às 17h. E olha que o estágio era de graça.

Um dia estava na sala da Andressa, outra produtora, conversando com ela e mais um monte de mulher, dando muitas risadas. Estava meio que no horário do almoço, única parte do dia que eu tinha uma folguinha. De repente, entra na sala aquele cara.

Pareceu câmera lenta. Entrou aquele garoto alto (tinha 1,90), pele branquinha, boca desenhada, cabelo castanho claro bagunçado liso caindo nos olhos, corpo bonito, calça da M Officer desbotada e camiseta preta com uma bandeira da Alemanha no peito, a camiseta era curta e aparecia as laterais do corpo, todo largado, nem aí. Lindo. Ele entrou, cumprimentou todas as meninas e saiu. E me largou babando por aquele ar de mistério que ele tinha, de bomba relógio, de perigo.

Perguntei na hora, discretamente: “Quem é ele?”.

A Andressa: “Esse é o Juliano. Não conhecia? Ele pegou duas semanas de folga, voltou hoje. Ele é bem queridinho, sempre vem aqui cumprimentar”.

Decidi que eu tinha que me aproximar dele. Queria saber mais. O cara parecia ter saído de um seriado!

Bom, comecei a ajudar mais o pessoal do setor dele. Como quem não quer nada, fui falar com a minha chefe dizendo que eu queria aprender mais e ela disse exatamente o que eu queria ouvir: “Melissa, por que você não troca uma idéia com o Juliano? Ele é um bom produtor, vai te dar umas dicas boas. Começa a ficar lá a tarde, pra você acompanhar o trabalho”.

E foi o que eu comecei a fazer. Apareci um dia no setor dele e lá estava, sentado ao lado do telefone, trabalhando. Entrei, pedi licença e expliquei tudo. O Juliano foi super simpático, disse que eu podia ir lá quando eu quisesse, já puxou papo e foi me explicando as coisas. Ele era ainda mais lindo de perto. O olhar dele te engolia. Ele tinha uma coisa que eu não sei explicar.

Comecei a ir lá todos os dias. E a gente conversava muito.

Conhecendo o Juliano eu descobri que ele realmente era perigoso. Tinha 23 anos na época, fazia aniversário um dia antes que eu e tinha uma filha pequena chamada Juliana. Com 23 anos, ele já tinha uma filha pequena! Levei o maior susto, mas imaginei que havia um lado bom: quem tem filha daquela idade deveria ser responsável e maduro. Engano meu.

Ter uma filha não o constrangia nem um pouco. Tocava em uma banda de rock, era extremamente galinha e comia mulher em banheiro de boate, comia mulher desconhecida, comia duas mulheres ao mesmo tempo. Era totalmente destrambelhado, curtia uma cerveja, tinha perdido o pai muito cedo (ele adorava o pai) e a mãe dele era uma maloqueira bonitona que criou os filhos meio largados.

Apesar (ou por causa) do histórico, mulheres de todas as idades davam em cima do Juliano. Na empresa, todas se abriam pra ele. O Juliano atraía com a sua cara de bebezinho e seu jeito perigoso.

Eu não sei te dizer em que momento tudo aconteceu, mas nós grudamos. Durante dois meses que eu ia lá diariamente, a gente se aproximou muito. E de um jeito que nem eu esperava. No começo, ele me tratava como irmãzinha. Me contava todas as porcarias que fazia quando saía a noite. Eu gostava dele, mas tinha plena consciência de que não tinha a menor condição de eu alimentar qualquer coisa (o cara era muito sem vergonha).

Mas com o tempo tudo mudou. Ele começou a me tratar diferente.

Na empresa, nós estávamos sempre juntos. SEM-PRE. Na hora de ir embora também, eu ia com ele todos os dias de carro até um trecho do caminho. Logo a minha chefe e as colegas de trabalho começaram a perguntar se estávamos namorando. Eu dizia que não, falava que não tinha nada a ver, que éramos só amigos. O que não era mentira, era só isso mesmo.

Perguntavam pra ele também, mas o Juliano não se incomodava. Pelo contrário, adorava. Vinha me contar com um sorrisinho sem vergonha, olhando no meu olho:

- Melissa, sabe o que vieram me perguntar hoje?
- Claro que eu sei. Estão perguntando pra mim também.
- E o que você acha de namorar comigo, Mê?
Eu olhava pra ele com uma sobrancelha levantada e dizia:
- Vai cagar, Juliano.

Ele se matava de rir.

Aí com o tempo, a gente ficando mais junto, ele começou a fazer umas coisas esquisitas
Espalhou que a gente estava namorando. Um dia, chegou pra mim, com o mesmo sorrisinho sem vergonha:

- Melissa, sabe a Dona Amélia, que serve o café?
- Sei.
- Veio perguntar pra mim se a gente está namorando.
- Mmm.
- E eu falei que nós estamos. Falei que eu tinha te pedido em namoro e você tinha aceitado.
- Falou?? Juliano, ficou doido?
- Não. Ela gostou, disse que já suspeitava. Me abraçou e disse que a gente combina.
- Ai... Ela disse que a gente combina?
- Disse. Ah, mas isso eu já sabia.
- Vai cagar, Juliano.

Eu xingava ele, meio rindo, e ele adorava. Se matava de rir. E me abraçava.

O negócio foi piorando. As pessoas perguntavam pro Juliano sobre a gente e ele confirmava, dizia que era namoro mesmo. Aí eu falava que não era, ninguém acreditava. Sabe o que ele fazia? Ia me visitar no meu setor, olhava pra mim e me cumprimentava, com o mesmo sorrisinho. Todo mundo fazia aquele “ÉÉÉÉ, TÁ NAMORANDO”. Eu fazia cara de ai-me-poupe e o Juliano com o mesmo sorrisinho pra mim, dava uma piscadinha, mandava um beijinho e saía, dizendo “Tchau, meu amor”. Eu nem tentava consertar.

Eu fazia caretas porque não poderia demonstrar que gostava dele. Se o Juliano sequer imaginasse como eu estava apaixonada por ele, com certeza me comeria viva! Sabendo dos meus sentimentos, ele poderia fazer o que quisesse. Eu não podia deixar, precisava me proteger.

E a gente cada vez mais junto.

Ele me tratava agora ainda mais diferente: com todo o cuidado, como se eu fosse de porcelana. Eu faltava ou tirava folga, ele me ligava no celular. Sempre. Pra saber onde eu estava, com quem eu estava... Uma vez, minha chefe me deu um dia de folga porque eu tinha feito umas horas extras. Aproveitei pra sair com uma amiga. E enquanto eu contava sobre o Juliano, de como as coisas estavam diferentes, que ele parecia se importar demais comigo, ele ligou no meu celular. A minha amiga não acreditou.

- Cadê você, Melissa.
- Oi Juliano. Estou de folga hoje.
- Mmm. E onde você está?
- Estou com uma amiga.
- Quem mais.
- Só a minha amiga.
- Estou com saudades de você, Melissa.
- Está nada.
- Estou sim.
- Não se preocupe, a gente vai se ver essa semana.
- Você sabe que eu te amo.
- Vai cagar, Juliano.

Ele dava uma gargalhada:

- É verdade, Melissa. Não tem a menor graça sem você aqui.
- Acostuma a estar sempre junto, não é.
- É.
- Mas então tá, eu tenho que ir.
- Eu te amo, tá?
- Eu também te amo. Beijos.

A minha amiga me olhava de olho arregalado.

Eu não levava o Juliano a sério. Não tinha como levar. Ele continuava comendo tudo o que era mulher que eu bem sabia. Tudo bem que ele não me contava mais as coisas, mas eu sabia que ele ainda era galinha.

E a coisa foi piorando. A gente saía sempre, mas claro, só programas diurnos. Ele me levava numa confeitaria bem gostosa perto da empresa, íamos passear no shopping depois do trabalho, eu ia comprar coisas com ele. Nós conversávamos muito. E puxa... Ele era tão carinhoso comigo. Tão gentil. Me dava presentinhos bobos, me levava no médico quando eu tinha consulta, me chamava de “pequena”.

Uma tarde ele entrou na minha sala e, como sempre, olhou pra mim com um sorrisinho sem vergonha e me cumprimentou, como se não tivesse ninguém mais por perto. As meninas começaram a tirar com a minha cara (elas não se cansavam), dar risadinhas e fazer piadinhas, e o Juliano fez algo que eu não acreditei. Falou:

- Bom meninas, eu queria oficializar pra vocês que eu e a Mê estamos mesmo namorando. Ela é o amor da minha vida.

Eu olhei pra ele e disse: “cala a boca, Juliano!”.

As meninas aplaudiram. E ele só rindo pra mim dizendo:

- Eu te amo, Melissa. Você é meu amor! – bem alto. A sala quase veio a baixo com os gritos das meninas.

E a nossa “amizade” virou assunto. Todo mundo comentava.

Vinham perguntar pra mim, eu dizia que não estava namorando com ele mas ninguém acreditava. Eu dizia “gente, o Juliano está só brincando, a gente não tem nada”. As pessoas diziam “ahan, sei... Vocês não se desgrudam! Não vem com esse papinho”.

Eu desisti. Nem falava mais nada.

A coisa foi ficando mais séria. O Juliano vivia agarrado em mim, abraçado, dizendo que me amava, me olhando com cara de bobo. Eu já estava com roupas dele. Casacos, moletons... Ele me emprestava pra eu levar pra casa em dias de frio. Levou o melhor amigo dele lá na firma me conhecer. O cara era do mesmo estilo dele, largado-bonitinho, só que menos bonitinho.

- Então você é a Melissa? – o amigo dele disse pra mim, rindo.
- Ahm, sou eu.

Saímos da empresa naquele dia e fomos prum boteco do centro tomar cerveja. Quer dizer, eles na cerveja, eu no suco de laranja. O Juliano me tratou como namorada. Segurou a minha mão embaixo da mesa e foi muito gentil. Eu estava me sentindo estranha, porque era sem hesitar uma situação de avaliação, mas não me deixei abater. Falei um monte e o cara riu pra caramba comigo.

Bom, a gente levava vida de namorado. Brigava bastante também, só não beijava.

O clima entre a gente estava cada vez mais forte. Um sábado a noite, quando eu estava me arrumando para sair, o meu celular tocou. Era ele. Meu coração disparou. Ele nunca tinha me ligado num sábado a noite.

- Juliano? Oi.
- Oi Mê. Em quinze minutos eu estou aí. A gente vai sair. Se arruma e desce. Beijos.

E desligou.

Ele parecia todo decidido no telefone. Como se quisesse resolver algo.

Coloquei uma roupa mais bonitinha e desci.

Ele estava no carro, me esperando. Eu estava MUITO nervosa. Morrendo de medo que ele quisesse só ficar, me agarrar e tchau, tirar uma cisma.. Sei lá. Não queria que ele me magoasse.

Entrei no carro mentalizando o seguinte “calma, é só o Juliano, o seu amigo. Vocês se dão super bem, não tem o que temer. Ele te respeita sim. Aja normalmente. Não é um encontro”.

Fiquei mais tranqüila e entrei no carro conversando normal. O Juliano estava mais quieto, só me ouvindo falar. Depois de umas piadinhas que eu fiz, voltou a ficar quieto. Só eu falava.

No lugar (fomos num barzinho cultural bem gostoso) o Juliano estava mudo. Parecia... Inseguro. Meu, eu não entendi nada, nunca tinha visto ele daquele jeito. Parecia um menininho apavorado. Não deixei me abalar, continuei normal, puxando assunto, conversando. Ele me olhava, sorria, mas estava totalmente amedrontado.

Ficamos lá até tardinho e fomos embora. O caminho inteiro fui pensando no que eu ia fazer quando ele parasse aquele bendito carro na frente do meu prédio. A minha barriga doía, eu estava com vontade de vomitar o que eu tinha comido, super nervosa. Eu tinha medo de dar a entender qualquer coisa errada, medo de ele pensar que eu queria que ele me beijasse só porque a gente saiu, que ele tentasse me agarrar de um jeito horrível, galinha, que me magoasse.

O carro parou. Eu disse “foi muito legal, Juliano. Não foi?”. Ele fez que sim com a cabeça, olhando pra mim, com aquela cara de quem está tomando coragem. Entrei em pânico. Falei “bom, acho melhor eu indo. Tchau, Juliano, obrigada”, dei um beijinho nele e saí correndo, fugida mesmo. Cheguei em casa e corri pro banheiro.

Na segunda, ele veio me dar oi com a maior cara de apaixonado. Eu também, né, toda suspirando. Ele perguntou como tinha sido meu final de semana. Eu falei “foi bom. A gente saiu”. O Juliano sorriu todo carinhoso.

Num dos dias que ele me deu carona, dei tchau pra ele e, quando eu desci, ele disse pela janela, já com o carro ligado:

- Melissa, amanhã eu vou fazer uma surpresa pra você.
- Surpresa?
- É. Não passa de amanhã.
- Olha lá o que você vai fazer, Juliano. O que que é? Eu vou gostar?
- Vai. Acho que vai. Quer dizer, não sei.

Eu sabia o que era. Era um beijo. Mas ele não ia ter coragem.

No dia seguinte, eu estava na minha sala sozinha, quando ele apareceu na porta. Ele me olhou sério e tomou coragem. Veio andando na minha direção, decidido, eu só olhando. Chegou em mim e... Não conseguiu, me beijou no canto da boca. Então escondeu o rosto no meu pescoço e disse “droga, eu não consigo!”, com voz de choro. Eu ri e passei a mão pelo cabelo dele. Eu sabia que ele não ia conseguir.

Na época, o diretor da empresa, nosso chefe, chamou o Juliano na sala dele. Deu uma bronca nele porque ele não saía da minha sala. “Não dá, Juliano, você tem que ficar no seu setor! Você não sai lá da sala da Melissa. Conversa com ela depois do trabalho, mas na hora do expediente você tem que cuidar do seu trabalho”. Sabe o que o Juliano respondeu: “Sabe o que é, Armando? Eu estou apaixonado pela Melissa. Não consigo mais ficar longe dela”. O diretor riu, achou bonitinho, e disse só pra ele maneirar as visitas.

Eu estava preocupada, sabia que ele tinha sido chamado na sala do Armando. Quando saiu de lá, o Juliano foi me ver. Chegou rindo com o Zé.

- Não era nada demais? – eu perguntei.
- Ele me deu uma bronca porque eu estou vindo muito aqui te ver e estou largando o meu trabalho.
- E aí?
- Aí eu disse que não conseguia mais ficar longe de você. Que estava apaixonado.

Eu ri, né. Lógico que não acreditei.

- Ai Juliano, me poupe a beleza.
- Verdade. Foi o que eu disse.

Como acabou essa história? Bom, o Juliano começou a querer me falar do que sentia, eu percebia que ele não agüentava mais aquela situação. Fazia milhões de convites pra sair. E me deixava arrumada esperando em casa. Me deu um monte de bolos. Medo puro. Ele quem me convidava! E me deixava plantada. Como se na última hora, se arrependesse. Na sétima ou oitava vez que ele fez isso, eu fiquei realmente brava. E meio que dei um gelo nele. Devolvi as roupas dele que estavam comigo e fiquei na minha. Parei de ir atrás.

Já era época de Natal. Dois dias depois, eu tirei 5 dias de folga. Quando voltei, o Juliano não trabalhava mais lá. Depois disso, nunca mais o vi. Como eu sofri.

Ele mandou um amigo dele me ligar um ano depois... Mas eu não dei corda.

No começo desse ano, o Zé, que sempre estava com a gente, veio me contar que o Juliano estava na Austrália estudando e que ele queria muito conversar comigo, queria meu msn. Cinco anos depois, gente. Desconversei.

Aí semana passada, o Zé sentou conversar comigo.

- Melissa, agora que já passou tanto tempo, que não tem mais nada a ver... Eu preciso te contar.
- O que?
- O Juliano era completamente apaixonado por você.
- É mesmo?
- Melissa, ele queria muito te contar o que sentia. Mas morria de medo. Eu queria ajudar o cara, mas o Juliano não saía da pose de machão, não admitia que queria namorar você. O único dia que ele soltou mesmo foi uma vez que nós fomos jogar sinuca, só eu e ele, tomamos umas cervejas e o cara começou a desabafar. Disse que nunca tinha conhecido ninguém como você, que te achava linda, que você era pra casar...
- Caracas, Zé.
- Ele dizia assim “Zé, com a Melissa eu caso. Eu quero casar com ela, cara. A Melissa não é qualquer mulher, ela é especial. É diferente. Quero casar com a Melissa, cara, quero mesmo”.

Eu fiquei passada, né. O Zé continuou:

- Pena que ele era tão frouxo, Melissa. Ele morria de medo de você. Não tinha idéia de como agir ao seu lado. Sabe o que ele fazia? Vinha com uns papos de que um amigo dele que sempre foi filho da puta estava completamente apaixonado por uma menina, mas como sempre tinha sido filho da puta e nunca tinha gostado de ninguém, não sabia o que fazer. No final, ele perguntava se eu achava que esse amigo dele devia conversar com a menina.
- E você dizia o que?
- Que sim, que ele devia falar.
- Caracas... Que engraçado.
- O Juliano só falava de você, Melissa. O dia inteiro. Pra você ter uma idéia, ele parou de dar moral pra mulherada aqui da empresa por tua causa. Um dia, uma lá que sempre dava em cima dele foi convidar ele pra sair, sabe o que ele fez?
- O que?
- Ele disse “Some daqui, piolhenta”. Me matei de rir. Eu vi ele fazendo isso! E a guria não era feia não. Ele tinha medo que alguém visse, te falasse alguma coisa e você ficasse pensando coisa errada, que não tinha a ver. Ele era louco por você, Melissa.
- Nossa...
- Pra você ver... E aquele dia do Armando, que chamou ele na sala dele e o Juliano disse que não conseguia ficar longe de você e tal, é verdade. Ele falou mesmo aquilo pro chefe.

É mole?

Até hoje eu lembro dele com carinho.

Três anos depois, eu conheci o Felipe. Lindo. E com caráter. Cheio de defeitos, mas meu amor. Ele sim soube me amar. Foi homem o suficiente pra vir e dizer o que sentia. Pra dizer que não conseguia parar de pensar em mim e que queria namorar comigo.

Mas essa história eu conto outra hora.

Pra você ver, essas coisas realmente acontecem...

Melissa

..:*:..:*:..:*:..:*:..:*:..

Melissa...

Fico feliz que tenha encontrado alguém pra você. Às vezes, uma cara de bebê e uma história de amor escondem alguém sem caráter, incapaz de nos fazer feliz. Espero que o Juliano tenha aprendido que mulheres são seres humanos e não coisas. E, como você, tenha encontrado alguém especial. Beijo pra você.
 
Domingo, Janeiro 27, 2008
 
SOS Gaby!!

basicamente ocorre que minha mãe é uma criança de seis anos. basicamente ocorre que, pra ela, tudo é um grande e cinematográfico drama. ela acha que amar é depender. então como eu e meu irmão não dependemos dela, a progenitora acredita que nós somos "diferentes dos outros filhos". porque na cabeça dela os outros filhos são super fiéis à mãe e extremamente devotos. que pagam as contas pra mamãezinha na Pernambucana (mamãezinha esta que é mulher feita e não consegue se organizar pra pagar as próprias contas no caixa, pelo amor de Deus!, ela tem 45 anos na cara!), que lavam a loucinha sagradamente e que penduram a roupa quando ela está na máquina de lavar, prontinha e limpinha. minha mãe sempre teve essa coisa de "precisar" da nossa ajuda pra tudo. até pra resolver os problemas nos namoros dela, que aliás eram fiasco atrás de fiasco, até pra isso ela precisava da nossa ajuda (teve uma vez que ela namorou um débil mental que só arrumava brigas por ciúmes e numa noite, eles vieram me chamar pra dar uma opinião sobre os conflitos imbecis deles, foi nojento)! a verdade é que minha mãe é uma criança de seis anos que procura colo o tempo inteiro nas pessoas erradas.

ela é de pedir dinheiro emprestado, de pegar as minhas maquiagens (porque tudo o que eu tenho é mais legal), de querer ficar amiga das minhas amigas (ela trocava scrap no orkut com uma delas, uma vez disputou a atenção de uma melhor amiga minha comigo e por aí vai), de querer atenção e eterna gratidão do meu namorado só porque ela dá caronas pra ele às vezes e faz uns almoços, minha mãe acha que eu tenho que ser amiga dela e ouvir as segredos dela sobre paqueras, sobre fofocas, sobre demitir ou não um funcionário (meu, ela é que tem 45 anos! não eu!)... e tudo isso, essa xaropice toda, essa cobrança chata de "eu quero depender de vocês e quero que vocês dependam de mim" fez com que eu e meu irmão fôssemos nos afastando dela. às vezes a gente fingi uma coisa ou outra só pra ela não ficar chiando porque se você diz "não, mãe, eu não quero pagar aquela sua conta pra você porque tenho as minhas próprias filas pra enfrentar" ou "não mãe, eu não tenho 30 reais pra te emprestar porque eu acho que é você quem deveria se organizar" ou "não mãe, desculpe, eu não quero ser sua melhor amiga, por favor, arranje uma amiga pra quem você possa contar sobre as suas paquerinhas, eu realmente não quero ouvir porque eu sou filha e não sua companheira de quarto, é estranho e desconfortável te ouvir falando de homem e de vontade de fazer sexo", se você diz qualquer uma dessas coisas pra ela, cara, ela surta. ela já ficou duas semanas sem falar comigo porque eu recusei uma negociata que ela me propôs! "filha, já que você vai ter que pegar táxi mesmo, me paga o que você ia gastar com o táxi que eu te levo". meu! olha que coisa de gente oportunista! eu não aceitei e ela ficou duas semanas sem falar comigo. "você nunca quer ajudar a sua mãe!!", ela berrou e bateua porta. não quero mesmo, não quando ela age como uma jogadora do bicho. ¬¬

aí a gente se afasta dela, a mulher ainda chora, joga as mãos pro céu e pergunta: "por quê, meu Deus, por quê!!". é simples, porque você é bizarra.

o meu namorado estava aqui hoje. ela simplesmente vira e pergunta: "genro, você pode pagar uma continha pra mim na Pernambucana?". ela queria dar o dinheiro e a fatura e queria que ele fosse lá efetuar o pagamento. eu olhei pra ela com a maior cara feia e disse que ele não ia pagar (pô, as calcinhas, sutiãs e blusas são dela!). ela deu um chilique absurdo e falou, na frente dele: "mas eu faço tanto favor pra ele, por que ele não pode fazer um pra mim??". você acredita que ela disse isso, Gaby?? que essa mulher louca, com 45 anos na cara, falou na frente do meu namorado que faz um monte de favor pra ele?? ela não consegue pagar as próprias contas, Cristo! é patético! foi lá, bateu a porta do quarto e se trancou lá dentro. gente, ela pede pra todo mundo pagar as contas dela da C&A, da Marisa, da Renner, da loja da Tia Gorda! Jesus, eu quase morri de vergonha! o meu namorado ficou super sem jeito, claro!, ela deixou ele numa posição totalmente desagradável! Jesus, todo mundo paga seus boletos nessa vida e enfrenta suas filas! por que minha mãe não consegue?? não é só ela que trabalha demais nesse mundo! hoje em dia, você paga as coisas pela internet, débito automático, correio, sei lá! mulher pidonxa. agora, como sempre, ela vai ficar duas semanas sem falar comigo. normal, estou acostumada já. depois ela fica chorando, perguntando pra Deus por que os filhos dela são diferentes.

e Gaby, não é querer fazer comparação, mas já fazendo. o meu pai é super legal nessa parte. ele é pai, entende. não é uma criança de seis anos que vive me pedindo as coisas. dá gosto de fazer as coisas pra ele porque meu pai nunca pede. quando ele pede, é até uma honra fazer. você se sente realmente filha com ele, sabe como é? com a minha mãe, cara, é um saco, porque ela precisa de todo mundo o tempo inteiro! ela nunca se vira sozinha, ela nunca resolve, nunca sabe o que fazer, ela nunca tem tempo porque trabalha demais e trabalhar demais é algo que a impede de fazer qualquer outra coisa, por isso ela precisa de ajuda pra viver a própria vida dela. EU ESTOU DE SACO CHEIO! você tinha que ver a cena que ela fez hoje com a história do boleto. um verdadeiro show, um chilique de primeira categoria. eu não suporto ficar perto dela às vezes. esses dramas que ela faz, toda necessitada, toda meus-filhos-não-me-amam. poxa, eu queria ter uma MÃE de verdade, uma MÃE normal, que orienta, que ajuda, que mostra o certo, que educa com paciência e carinho, e não uma irmã egoístinha, que cobra cobra cobra, é carente e dá chiliques o tempo todo de "meus filhos não fazem nada por mim". quanto mais ela é assim, mais eu quero distância dela. coitado do meu namorado... ficou tão sem graça.

o que que eu faço, Gaby?

com carinho, a Filha Sufocada.


querida Filha Sufocada.
no seu lugar, eu já teria explodido. acho que a solução é se mudar para a garagem.
beijos, Gaby.
 
Quarta-feira, Janeiro 09, 2008
 
a família do meu namorado foi embora pra Minas Gerais. todos os parentes da minha sogra são de lá. e ela desde que eu a conheço fala em voltar pra cidade, morar com toda a parentada num mesmo terreno, juntos pra sempre e aquela coisa toda totalmente interiorana. eles sempre falavam que iam pra lá, mas nunca iam efetivamente. aí nesse ano, eles decidiram. no começo, a gente achou que era mais uma conversa mole, mas que nada, era verdade, "no duro".
mais ou menos em julho essa história começou. e o meu namorado deixou claro desde então que ele não iria junto, que ficaria. agora você imagine o que é isso para uma mãe que sempre teve um relacionamento durepóx com os familiares, principalmente com o filho mais velho (que coincide de ser o homem com quem eu pretendia me casar). a minha sogra fez de TUDO o que você imagina pra ele ir, lógico, super no direito dela. chorou, fez chantagem, ameaçou passar mal, disse que ele tinha que ficar com a família para sempre... milhões de argumentos. sugeriu pra mim que "deixasse" ele ir, fazer a vida por lá pra depois vir me buscar. eu não disse nada desde o princípio. preferi observar a movimentação toda.

o menino bateu o pé e disse que ia ficar, que tinha planos de construir uma vida comigo. mas pra isso ele precisava de um emprego e lugar pra ficar. nossa, foi sofrido. a família pressionando de lá, eu tentando apoiá-lo daqui, ele correndo atrás das coisas e desesperado porque nada dava certo, a gente orando, pedindo pra Deus fazer o melhor... foi muita choradeira, muito stress, muita briga, muito pepino e desentendimento. a mãe dele fez tudo pra ele não ficar. e ele fez tudo pra ficar. e eu não fiz nada, só fiquei do lado dele, tentando ajudar, consolar... não foi fácil, chorei muito. achei que ele não ia conseguir. a gente leva tanto tempo pra encontrar alguém, puxa vida...

mas olha só. parece que Deus é a favor do casamento mesmo. tudo bem que está lá na Bíblia, em Gênesis 2:24: "Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne", mas na prática a gente nunca sabe como vai ser.

o que eu entendo, observando tudo o que aconteceu, é que uma hora a gente cresce e não dá mais pra ficar seguindo pai e mãe. você ama seus pais, claro que sim, mas todo mundo precisa seguir seu rumo, não é verdade?

apesar de pensar assim, te juro que pensei que o meu jaguara não ia conseguir. que ele ia ficar com a mãe e o pai. mas sabe... ele me surpreendeu. ele estava decidido e realmente batalhou pelo o que queria. e agora, ele está virando um puta homásso. que além de lindo, é cheio de hombridade. você disse no seu email: "É claro q ele tem vc e a sua família, mas família é família, né?". mas acho que isso é até que você casa e tem a sua própria família. essa é a diferença de quando você decide crescer e ser adulto. você olha pra frente, pro futuro, para o que você vai conquistar. e não para o que você já tem. porque quando a gente cresce, continuamos amando nossos pais, mas eles viram visitas de final de semana. porque agora quem importa mesmo são a esposa e os filhos. e chega uma hora na vida que a gente tem que escolher: ou eu corro atrás de mim ou fico estagnada no meu papel de filho. a decisão dói, claro que dói. mas é necessária e muito importante. claro que seria ótimo se todo mundo morasse na mesma cidade, se os meus sogros não tivessem ido... mas com o meu futuro esposo não foi assim, ele precisou escolher. e é essa decisão de hoje que vai a fazer toda a diferença no homem que ele vai se tornar amanhã.

não é fácil, viu... ele chorou bastante. mas tem ciência do quanto é importante esse momento. é o momento dele. é o momento em que Deus vira pra gente e pergunta: "você quer ser mais do que isso? quer ver como você se sai andando com as próprias pernas?". se você diz que sim, vai sentir muita dor e medo no começo, mas Jesus te ajuda, te segura, cuida de você, te dá força. e o futuro... te surpreende.

estou bem contente. ele sempre teve potencial pra ser um grande homem. é agora que eu vou vê-lo aparecer. não vejo a hora. chega de namorar um menino.
 
Segunda-feira, Janeiro 07, 2008
 
nesse final de semana que passou, o meu namorado veio almoçar aqui em casa. aí, depois de comermos, começou aquele momento TOTAL pançudo de campeonatinho de arroto. e como sempre, eu ganhei. eu sempre ganho (e confesso que me orgulho disso). após as minhas demonstrações chiquérrimas de talento nato, meu irmão virou para ele e disse: "cara, que beleza, hein. você namora um homem". na hora, fiquei indignada e reclamei, dizendo que eu era homem porcaria nenhuma e blá blá blá. então hoje no trabalho, fui contar para um amigo meu uma coisa que ele não podia contar pra ninguém. mas antes, eu o alertei da seguinte forma: "se você contar pra alguém, eu te dou um soco na boca. e você vai voltar banguela pra casa e daí quero ver arranjar desculpa pra tua esposa. vai ter que contar que apanhou de mulher". ele disse "fica tranquila, Gaby, relaxa", com uma cara de "beleza, beleza, mano". o comentário saiu tão natural que eu nem tchum. mas depois fiquei pensando... cara, eu acho que meu irmão está certo. eu tenho um jeito de homem às vezes. fui perguntar pro meu esposo o que ele achava, se eu tinha ou não, e ele riu. falou que eu sou meio mano sim, mas que ele gosta porque é a minha personalidade. acha legal eu não ser fresca, não ser como as outras meninas, gostar de videogame, arroto, piada caminhoneira...

mas mesmo assim... fiquei pensando. será que eu não deveria ser mais feminina? a minha mãe VIVE me xingando, dizendo que eu não posso ser desse jeito maloqueira, onde já se viu, tem que ser mais delicada, mais fina... eu nunca dei bola porque, bom, sei lá, é minha mãe, né. mães enchem o saco mesmo, é a função delas. só que agora eu entendo... pra quem vê, de fora, deve achar estranho. porque, quer dizer, eu me arrumo, uso maquiagem, mas arroto. isso chega a ser uma existência inadequada? é fogo.
 
Quinta-feira, Dezembro 27, 2007
 
isso nunca aconteceu com você? é que comigo acontece tantas vezes... eu estou passando por um momento difícil, desânimo total, dificuldades massacrantes, de repente eu ouço aquela música. e ela parece que entra em mim e aquela dúvida que vinha me consumindo parece que é respondida e todo o peso do meu coração desaparece. entra tantas vezes que isso me aconteceu, uma delas foi com Oh Happy Day. cara, a letra dela deveria tirar qualquer um da fossa.

mas a coisa mais legal aconteceu semana retrasada, só que com outra música. eu estava tão mal, com a situação do meu namorado. você tem idéia do que é o cara por quem esperou o resto da vida, que você ama tanto, de repente ter que ir embora pra outro estado longínquo e nem você nem ele poder fazer nada a respeito? pra ficar, ele precisava arranjar um emprego até um determinado dia. e o relógio está correndo, o namorado corre atrás de emprego que nem louco e nada, meu Deus o prazo está acabando!, e os seus sogros indo e nada de emprego... fazia dois meses que eu só chorava. dois meses chorando e com o coração apertado, com medo de perder o meu jaguarinha, a família dele também triste em casa, mas também rolando algumas brigas...! horrível. eu voltei a sorrir só na semana passada. tem noção? e porque eu ouvi essa música que eu sei que foi resposta pra mim.

eu coloquei pra tocar (recebi ela por email, bem nada a ver) e nossa... chorei pra burro. sabe, eu já vi Deus fazer coisas inacreditáveis na minha vida. e eu não sei porque duvidei agora. semana passada, o namorado conseguiu lugar pra morar (um amigo convidou ele pra dividir o apartamento) e ele já está trabalhando.

então, tem música que parece que fala com a gente. enche de otimismo e, com aquela letra simples, você compreende que não havia motivo suficiente pra ficar triste porque, no final, tudo fica bem.

já aconteceu com você?
 
Sábado, Novembro 17, 2007
 

Gaby...

sabe o que eu reparei namorando dois anos e meio? que às vezes, deixamos passar coisas graves que acontecem só porque amamos a pessoa ou porque não queremos briga. ok, vamos chama-lo de Bob. cara, quantas vezes Bob disse coisas horríveis pra mim em brigas ou me ofendeu ou fez brincadeiras estúpidas ou desconfiou de mim e eu deixei passar, pensando "ah tudo bem, ele ainda não amadureceu sobre isso". esse negócio de que o cara não amadureceu era sempre a minha desculpa pra fingir que não tinha visto que Bob tinha feito algo ou dito algo ou tomado certa postura em relação a mim que realmente me ofendeu. ele é mais novo, então a suposta "imaturidade" dele era sempre o que eu usava pra justificar os desrespeitos do meu namorado.

a gente meio que opta por ficar anestesiada.

houve um tempo em que Bob começou a ser MUITO grosso comigo. o tempo todo. e eu pensava "não, ele está nervoso com algo" ou "tadinho, ele é imaturo, não sabe lidar com os pepinos da vida dele e desconta em mim, está desempregado e tal..." ou "ele é imaturo, não aprendeu a lidar com mulher porque na casa dele, o pai dele é um insensível grosseiro e a mãe dele é uma infeliz, então ele está repetindo o papel do pai, não teve exemplo de relacionamento".

mas sabe, vou ser bem sincera com você. um dia, trocando uma idéia com Deus, eu me toquei de que Bob me deve respeito, independentemente da história de vida dele. não importa se o pai dele o ensinou a ser homem, não importa se o casamento dos pais dele é uma droga e ele só viu esse tipo de amor enquanto crescia, não importa, o Bob me deve respeito. porque eu o respeito, apesar da minha história de vida, que também não foi bolinho. meu, todo mundo tem uma história! atitudes como patadas, respostinhas atravessadas, piadas destrutivas, desconfianças, eu não tinha que aturar nada disso porque, graças a meu maravilhoso Deus, eu não fui encontrada numa lata de lixo. eu também tenho um papel importante nesse namoro e mereço respeito!

bom, parei de dar desculpinhas pra mim mesma. eu não tinha que livrar a cara dele pelos erros que ele cometia no namoro.

Bob, assim como o seu namorado, é imaturo em algumas questões, mas não é idiota, nem retardado mental muito menos criança. eles sabem MUITO BEM o que é certo e o que é errado. eles sabem MUITO BEM que amar exige ESFORÇO. eu não consigo ser carinhoso? meu pai não me ensinou? tudo bem, é um saco, mas é a vida. eu contorno isso, me esforço e APRENDO a ser diferente. porque eu não sou feito de madeira. eu sou um ser humano que tem capacidade de fazer escolhas e, através delas, posso evoluir.

resultado? comecei a exigir respeito, amiga. quando Bob começava com idiotice, eu cortava na hora. muito séria, eu virava pra ele e dizia: "eu não gosto desse tipo de atitude. por favor, gostaria que você não fizesse mais essas coisas. eu sou ou não sou a mulher da sua vida? você me ama? quer casar comigo como você diz, Bob? então me trate de acordo com o cargo que eu ocupo. eu não aceitei você na minha vida pra ficar recebendo patada ou julgamentos injustos. se continuar assim, o nosso casamento não dura um mês. e eu zarpo fora porque antes de te amar, eu amo a mim". não aceitei mais nem uma grosseriazinha, nem uma piada idiota, nem uma desconfiança. NADA.

quer dizer que eu comecei a arrumar briga a toa ou fiquei arrogante? não. mas comecei a fazer ajustes, Gaby. falei pro Bob que, quanto mais a gente faz uma coisa, melhor ficamos naquilo. namorar tem que ser assim também. quanto mais tempo eu passo com você, mais eu te conheço, mais sei do que você gosta e não gosta, então mais feliz eu vou te fazer. foi isso que eu implantei no meu relacionamento. a gente nunca mais brigou, amiga. agora nós conversamos quando algo nos incomoda:

- Silvana, eu não gostei daquilo que você disse ontem.
- Ué, por quê?
- Porque ficou parecendo isso, isso e isso.
- Ai Bob, puxa vida, me desculpe. Nem percebi.

exige humildade, reconhecer que nem sempre a gente acerta, mas é muito saudável.

o que eu quero dizer com isso, mulher, é que talvez você devesse questionar sim os comportamentos do seu ex-namorado (já que vocês continuam próximos). impor respeito. como ele ousa desconfiar de você? poxa, ele pensa que você é o que? vagabunda? que namora e sai traindo com o primeiro que te chama de 'minha linda'?? talvez fosse o caso de você dizer "Fulano, eu te amo. e sei que você me ama, portanto eu exijo respeito assim como eu te respeito. eu não sou mulher da vida, você não me encontrou na esquina, já te provei milhões de vezes o quanto você é importante. está desconfiando ainda por quê? parece que não me conhece, cara. parece que namora comigo há um mês. pô, supera! vamos ser feliz!".

imaturidade não é desculpa. nunca é. como sua amiga que também tem namorado e já passou pelos mesmos tipos de stress, te garanto: nada justifica o desrespeito. NADA. se ele é imaturo e inseguro, ele que trate de se ajudar. e parar de apontar o dedo no seu nariz como se você fosse uma qualquerzinha, que sai dando em cima de todo mundo. eu, no seu lugar, ficaria ofendidíssima, amoguéco. de verdade.

estou te dizendo tudo isso porque acredito que o seu namoro tem jeito. mas o rapaz precisa colaborar. ele tem que resolver dentro dele se ele confia ou não em você. separar o que é "ranso" que ele carrega e o que é realidade. se você deu motivos reais pra ele achar que você trai, aí vou concordar com ele. senão, nada feito. pelo o que você me contou, é tudo pira da cabecinha dele... então ele que faça o favor de superar a paranóia e se transformar em um homem de verdade, que se garante por saber tratar a mulher que ama. crescer também é uma escolha, meu anjo.

mas caso você tenha decidido que não quer mais o rapaz, tudo bem. leve esses conselhinhos pra sua vida, nêga. desconfiança é desrespeito. e desrespeito não se negocia. é não admitir. e ponto.

pensa nisso.

Silvana.
 
Quarta-feira, Novembro 14, 2007
 
fazia dois anos que eu fazia terapia com a Denise, psicóloga. então quer dizer, a mulher já era tipo amiga pra mim. ela me adorava. pra ter uma idéia, um dia, no final de uma sessão que eu tinha chorado muito e estava mal pra caramba, ela me levou pra tomar lanchinho na casa dela (o consultório ficava no andar de baixo e a casa dela no andar de cima). eu tinha MUITA consideração pela Denise e ela dizia que tinha um carinho especial por mim, que eu não era como qualquer paciente, que ela nunca tinha levado ninguém na casa dela pra tomar lanchinho (eu lembro que tinha até uva itália)... enfim.

e ela acompanhou DIVERSOS dos meus casos amorosos. a área amorosa pra minha psicóloga era sempre difícil porque, na opinião da senhora, homem nenhum prestava, todos eram cacos, ninguém nunca estava aos meus pés. eu percebia que isso era algo mal-resolvido dela, mas deixava pra lá porque não me atrapalhava. mas quando eu comecei a namorar, a coisa pegou.
eu conheci o Anderson (namorado) e a Denise acompanhou a nossa aproximação, até que uma bela tarde eu cheguei lá e disse: "Denise, estou namorando". juro que pareceu que ela não gostou. e no final da sessão ela solta: "bom Gaby, eu acho que esse namoro não dura um mês, porque esse garoto é pouco pra você, mas tudo bem, vamos ver no que vai dar". depois disso, eu não voltei mais. porque entendi que a Denise tinha chegado no limite dela e passado tudo o que podia pra me ajudar. como eu ia falar do meu namoro se ela não acreditava nele e já tinha dado a sentença? ela ia sempre concluir que eu deveria terminar. então parei de fazer terapia com ela.

cada uma.
 
Sexta-feira, Novembro 09, 2007
 
E quando você acha que já viu de tudo, você descobre que viu porcaria nenhuma.

Hollywood não é só glamour, meus queridos! Lá também tem assalariados.
Os roteiristas de Hollywood obrigaram os estúdios de TV a suspenderem a produção de pelo menos sete sitcoms (os seriados engraçadinhos) do horário nobre, mostrando que os efeitos da greve, iniciada há três dias, estão se fazendo sentir mais rapidamente do que o setor previra.
Não houve sinais de retomada das negociações entre os estúdios e os sindicalistas, suscitando temores de que a primeira grande greve em Hollywood nos últimos 20 anos possa ser prolongada.
A produção parou em seriados como "Two and a Half Men", da CBS, e a popular sátira da NBC "The Office", e centenas de membros do elenco e equipe técnica desses seriados começaram a receber avisos de demissão.

Mas o que mais me animou nessa notícia foi saber que "The New Adventures of Old Christine", um seriado que eu particularmente acho inútil e sem propósito, entrou no balaio dos sem-episódio. Deixemos de lado as grandes corporações e pensemos sobre os seriados como um todo que são transmitidos. Esse poderia ser um excelente momento para os chefões refletirem sobre algumas tosqueiras que são veiculadas estilo Men In Trees, The OC e Gilmore Girls (os dois últimos, graças a Deus, acabaram).

Algumas já têm episódios novos prontos em número suficiente para durar mais algumas semanas sem apelar para reprises, fato que faz a maioria dos telespectadores até agora não ter consciência da greve.
Mas os cinegrafistas, cabeleireiros, assistentes de produção, eletricistas e outros membros das equipes técnicas desses programas agora se juntam aos 12 mil roteiristas sem trabalho desde que seu sindicato entrou em greve contra os grandes estúdios americanos de cinema e televisão, na segunda-feira.

O contrato de três anos do sindicato dos roteiristas chegou ao fim na quinta-feira. Os roteiristas reivindicam uma parcela maior da receita dos programas na Internet, amplamente vista como canal de distribuição da maioria dos produtos de entretenimento no futuro.

Abriu precedente. Hollywood está ferrada. Oh yeah baby.
 
Segunda-feira, Novembro 05, 2007
 
01. Existem biscoitos feitos de água e sal. O mar é feito de água e sal. Logo, o mar é um biscoitão. 02. Quanto mais comemos, mais defecamos; Quanto mais defecamos, mais emagrecemos; Logo: quanto mais se come mais se emagrece.
03. Sabe-se que as baratas sobreviveriam a uma guerra nuclear. A esperança é última que morre. Logo, a barata é o símbolo da esperança!
04. Hoje em dia, os trabalhadores não têm tempo pra nada. Já os vagabundos têm todo tempo do mundo. Tempo é dinheiro. Logo, os vagabundos ganharão mais dinheiro do que os trabalhadores.
05. Imagine um pedaço de queijo suíço, daqueles bem cheios de buracos. Quanto mais queijo, mais buracos. Cada buraco ocupa o lugar em que haveria queijo. Assim, quanto mais buracos, menos queijo. Quanto mais queijos mais buracos, e quanto mais buracos, menos queijo. Logo, quanto mais queijo, menos queijo.
 
Domingo, Setembro 16, 2007
 
conversa entre amigas

- ele representa tudo o que eu idealizo, e por mais porco que ele seja comigo... eu sei que ele pode ser a pessoa mais legal do mundo, e eu queria tanto que fosse comigo.
- posso ser sua amiga? *amigo é aquele que fala a verdade, e não o que o outro quer ouvir*
- à vontade.
- bom, primeira coisa: ele representa o que você idealiza, você disse. se você IDEALIZA, é porque não é real. você julga esse rapaz baseada num conceito que está SOMENTE dentro da sua cabeça.
- mmmm.
- segunda coisa. ele é porco. ponto. porcos não são legais. porque até a legalzice deles é pra comer mulher. a não ser que eles conheçam Jesus e tenham as vidas transformadas, porco é porco. fato. terceira coisa. a carência move o mundo. isso quer dizer que por carência a gente faz e pensa muita coisa estúpida. você está carente e a intensidade dessa lacuna é tamanha que você começou a acreditar que vale a pena se entregar para um imbecil, desde que o buraco seja tapado.
- mmmm.
- quarta coisa. você é uma moça de muito valor. você é especial. e não precisa ficar desfilando na frente de um sem caráter desse pra tentar convencê-lo de que você presta e que não é como as outras. "olha, Fulano, eu sou uma moça pra casar! olha olha". ele NUNCA vai te enxergar porque a história de vida dele, e o caráter duvidoso que ele tem, não o permitem.
- mmmm.
- quinta coisa. existem homens bons por aí, amiga. a gente começa a atraí-los quando começamos a cuidar dos nossos conteúdos e a nos dar mais valor. quando a gente atrai caco é porque estamos um caco por dentro. é como ir ao mercado com fome. você compra a primeira porcaria que te aparece na frente.
- você falou tudo.
- então, mocinha, pare de pensar tanta asneira. a gente entrega o nosso coração pra qualquer um porque não sabemos o que fazer com ele.
- é tudo porque eu não me dou o valor... preciso ouvir ele me chamando de "gostosa" para conseguir me achar bonita.
- te digo isso tudo porque também já pensei assim. é como eu disse: a gente entrega o nosso coração pra qualquer um porque não sabemos o que fazer com ele.
- exatamente.
- então toma tento, guria. se liga, acorda pra vida. idealizar só funciona em filme. olha pra você, olha pra quem você é. você não foi encontrada em uma latrina. você é linda, especial, querida, divertida. administra a carência dentro de você porque homem NENHUM supre a carência da gente. não pense que eles resolvem os nossos problemas. pelo contrário. porque quando a gente começa a namorar, descobre que o outro tem mais carências do que a gente. dá um trabalho do caramba.
- é verdade. quando a gente está a procura de um namorado, tudo faz parecer que com um a vida vai melhorar, mudar completamente... eu preciso mesmo é estar bem comigo mesma, e sempre tive dificuldades com isso.
- quem não tem? só Jesus pra nos ensinar. porque Ele sim nos ama.
 
Quinta-feira, Junho 28, 2007
 
tudo isso, na verdade, começou depois que eu conheci um certo rapaz. toda esta vontade de ser melhor, é claro, tinha que envolver um amor. mas sabe, eu não dou a mínima em ser clichê, desde que este sentimento acrescente. meu Deus, precisa edificar. se alguém, com quem você trocou beijos na boca, passou pela sua vida e não causou nenhum tipo de mudança... sinceramente, eu nem acho que isso é possível! marcas ficam, a não ser que você seja feito de telha. o que foi dito, demonstrado, tudo colabora para o que você passará a ser.

enfim.

o negócio é que, no meu caso, o amor não passou. continua vivinho e latejante. portanto, vamos a parte prática. o negócio aqui é meio urgente. momento de revisar tudo o que acreditei até aqui (que eu sabia tudo e que era imune a carências afetivas, por exemplo). afinal, para fazer alguém feliz, você precisa estar em dia com os seus sentimentos, precisa estar psicologicamente saudável. e, sabe, eu não estou. pelo menos, não estava. não estava porque, juro, já percebi mudanças. por isso, vou recorrer ao tempo passado para relatar o impasse.

a verdade é que eu estava impregnada pelos meus pais. olha lá eu me justificando em casa e, enquanto falo, posiciono os meus dedinhos da mão do lado esquerdo do rosto, meio que na bochecha meio que no canto da boca, IGUALZINHO meu pai faz. ou, durante uma discussão familiar, faço aquele mesmo olhar de reprovação-misturado-com-nojinho, IDÊNTICA a minha mãe.

você acha que as intoxicações param por aí? de jeito nenhum. é mais profundo, vai lá no âmago, contamina os meus comportamentos.

tudo bem, sem conversa fiada, vamos a parte prática.

a questão é que o meu amor, aquele certo rapaz, anda desfrutando da minha versão shampoo 2 em 1 (pai e mãe em mim) como quem toma um suco de couve-flor asiática. blé. citar momentos para ilustrar? ahm, ok, deixe-me pensar. ah, já lembrei de um. na hora de discordar sobre algo geral, como política, visões bíblicas etc, rola uma tendência da minha parte em desprezar, de forma baixa e prepotente, o pensamento do outro. no primeiro diálogo deste tipo, o outro engole. no segundo, se irrita porque não quer ser anulado. no terceiro, me manda ir cagar. tosco.

no começo, a gente ama a qualquer custo. depois, é como se tivéssemos contas a acertar com o amado. fogo.

eu me sinto meio repetitiva experenciando isso tudo porque não é a primeira vez que eu me pego recorrendo às personalidades dos meus pais para reagir aos eventos da vida. só que agora ou vai ou racha porque, aloooou, eu estou perdendo um grande amor aqui!

eu não tenho a menor idéia do que devo fazer. em contrapartida, tenho uma noção bastante abrangente do que eu NÃO devo. mas sabe, esse chute na bunda que eu levei da vida (quando me toquei de que a minha identidade secreta é a Dona Florinda, do Chaves) já está gerando transformação de caráter. afinal, são dores que purificam.

eu estou otimista. acho que consigo reconquistar meu brotinho. ai que saudades dele.
 
Quarta-feira, Abril 04, 2007
 

O retrocesso da briga familiar

Por anos da minha vida eu odiei o meu pai. Anos. Eu cultivava uma raiva por ele como se fosse um jardinzinho. Todos os dias, eu regava, adubava, colocava no sol e a minha florzinha de ressentimento ia crescendo um pouco todo dia, linda e formosa.

A minha birra se justificava com o fato de o meu pai não ter me confirmado como pessoa nem como mulher. Para mim, ele não me amava, afinal, não demonstrava nenhum sinal para que eu pensasse o contrário.

Entre nós, não existia o mínimo diálogo. Quando ele se propunha a conversar comigo, era para me cobrar alguma coisa ou para me lembrar o quanto eu era irresponsável por ter esquecido a data de pagamento da faculdade ou desorientada por não ter noção de ruas e bairros. Lembro até hoje das vezes em que ele levou a mão à testa, indignado, e me disse, repetidamente, "Gabriela, meu Deus, como você é perdida! Por favor, se esforça pra pensar, ser burrinha não é bonito, sabia??". Aquilo entrava em mim e era absorvido pelo meu coração como água na toalha.

E claro, isso tudo só reforçava a minha raiva. Eu gritava com o meu pai, batia o telefone na cara dele e sempre que podia, o lembrava, aos berros, da droga de pai que ele era.

Eu não vi acontecer, mas com o passar do tempo, a única referência que eu tinha dentro de mim era esse sentimento obscuro. Algo negro que só crescia em meu interior e que, sem eu notar, consumiu a minha personalidade. Eu vivia em função desta mágoa.

Além de ter sido uma pessoa amarga já a partir dos meus 14 anos até os 19, os meus conceitos de homem e mulher foram completamente distorcidos. O que meu pai representava em minha vida (abandono, dor, frustração) passou a ser regra e eu comecei a associar o que eu vivia em casa com os outros homens.

Peguei nojo do sexo masculino já cedo. Na minha opinião, eram todos uns crápulas insensíveis e imprestáveis, que estavam neste mundo com uma única finalidade: me machucar. Eu sentia que precisava ficar longe de todos eles se quisesse sobreviver e ser razoavelmente feliz.

Ao mesmo tempo, eu cultivava paixões doentias por homens idealizados e inalcançáveis, como atores e líderes de banda. Passava o dia idolatrando fotos na parede. Vivia em um mundo paralelo e irreal, em que eu conversava com príncipes imaginários e passava por experiências que tinham saído diretamente da minha imaginação e nada tinham a ver com a realidade. A forma que eu arranjei de suprir toda aquela carência que eu nutria de uma presença masculina em minha vida.

O meu papel de mulher também sofreu prejuízos. Como não havia sido confirmada pelo meu pai, sem nunca ter ouvido um "filhinha, como você é bonita" e coisas do gênero, cresci achando ser uma planta aquática: assexuada. Sem forma, sem cor, sem brilho. Eu era mulher, mas não me sentia como uma. Me vestiria, na época, com um saco de estopa se pudesse. Tudo o que eu queria era me esconder.

Tudo por causa de uma relação mal-resolvida com o pai.

Foi então que eu conheci uma pessoa. E enxerguei todas estas coisas.

A primeira coisa que percebi era que, por causa da lacuna que eu carregava, me transformei em uma demanda tão grande e pesada, que meu pai, vendo que não conseguia dar conta, passou a se sentir sufocado e a fugir do nosso relacionamento.

A segunda coisa que entendi é que o papel de pai perfeito, aquele dos meus sonhos, jamais poderia ser desempenhado pelo Seu Cláudio. Ele, como ser humano, também tinha limitações, carências e frustrações, que, em alguns casos, o permitiriam ser ótimo, mas em outros o impediriam de ser amável e compreensivo.

A terceira revelação que tive veio quando estava lendo a Bíblia, em Efésios capítulo 6, já nos primeiros versículos: "Filhos o dever cristão de vocês é obedecer ao seu pai e a sua mãe, pois isto é certo. (...) Faça isso a fim de que tudo corra bem para você, e você viva muito tempo na Terra". Eu entendi o que estava por trás da letra.

Vi, como em um filme, todo o tempo que eu perdi cultivando sentimentos destrutivos pelo meu pai. E como eu poderia ter sido muito mais saudável se tivesse simplesmente seguido a palavra, honrado o meu pai e entendido que ele merece ser respeitado não por quem ele é, mas sim pelo cargo que ele ocupa em minha vida.

Hoje, vejo claramente que toda aquela carência e aquele vazio, o meu pai da Terra não seria capaz de erradicar. Mas o meu Pai do Céu, ah, este sim é capaz de me resgatar do lodo e me transformar em alguém diferente.

Eu precisei ser restaurada. Minhas opiniões foram remodeladas, meus pontos de vista refeitos e minha capacidade de amar aperfeiçoada.

Percebo que, por causa de um relacionamento patológico em família, algumas pessoas não conseguem progredir e se permitirem ser seres humanos melhores. Cuidado. Angústia e ressentimento se transformam em obstruções.

Lendo a Bíblia, em Mateus, percebi que Jesus entendia do psicológico humano. E falava com propriedade quando o assunto era pai. Ele sabia que, sem um relacionamento de respeito em casa, o caráter de um filho pode ser corroído com facilidade.

Abrir mão dessa dor e entregá-la nas mãos dEle é a resposta.

Talvez você não acredite. Não tem problema, eu te amo e respeito mesmo assim.
 
Domingo, Fevereiro 25, 2007
 
nos últimos dias eu estou meio esquisita.
eu estou repensando o meu jeito de ser. descobri muitas coisas na minha personalidade que precisam ser mudadas. coisas que sempre magoaram as pessoas que convivem comigo. e eu estou em crise, meio tristona, tentando ser diferente, mas ao mesmo tempo perdida porque eu nunca fui outra coisa. eu sei que tenho que mudar atitudes, mas não sei o que colocar no lugar delas. então eu continuo cometendo os mesmos erros, só que agora consciente de que os estou cometendo. aí eu sofro porque fiz e, pior, porque ainda não sei fazer de outro jeito. não sei se deu pra entender.
 
Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007
 
eu não queria ser rica

- meu pai é um problemático. acha que a gente vai explorar ele. eu não quero aquele dinheiro dele, não. já meu irmão e minha mãe... nossa... acham que ele tem que dar as cuecas pra gente. bando de folgado.
- teu irmão acha isso?
- meu irmao já falou várias vezes: "eu não quero saber o que meu pai faz com o dinheiro. eu só quero a minha parte". meu irmão é um idiota, que vive de sugar os outros. em casa, come tudo o que está na geladeira e vai embora pra casa dos amigos. volta uma semana depois, faz a mesma coisa e some de novo. agora, está aparecendo mais porque tem internet a cabo em casa.
- mas a maioria dos filhos pensa isso mesmo. ainda mais quando o pai tem dinheiro.
- sabe, eu não acho que pai não tem que dar absolutamente nada. não é isso. só que pô, o meu irmão é um merdinha! que não quer saber de dar duro na vida e quer ter mesada até os 40 anos de idade.
- eu acho que você não devia se incomodar com isso, porque futuramente isso terá uma conseqüência e quem sabe o seu irmão e a sua mãe entendam...
- ver ele e a minha mãe metendo o pau no meu pai como se ele tivesse de ser punido por ter dinheiro... revolta.
- sendo bem sincera? eu acho que não pensaria como você na sua situação. ninguém pensa como você. a galera é folgada mesmo.
- às vezes dá dó do meu pai. ele é tão molenga...
- bom mas não tem o que fazer, tem?
- e minha mãe, NOSSA! ela é a PIOR de todas! não sei como pode meu pai ainda ser casado com ela! cara, que mulherzinha sanguessuga! e outra: se meu irmão é esse merdinha hoje, que não consegue concluir nada na vida e é um folgado, parte da culpa é dela! além de ela ter nos ensinado a odiar meu pai e a querer o dinheiro dele, ela fica protegendo o meu irmão. ele caga, ela limpa, ele caga, ela limpa. ele NUNCA arca com a conseqüência de nada!
- entendo. agora é um bunda mole.
- família e dinheiro juntos só dá merda.
 
Domingo, Janeiro 28, 2007
 
Olá Gaby...

antes de escrever qualquer coisa, eu quero puxar a sua orelha!! COMO ASSIM NÃO FALA HÁ UMA SEMANA COM O SEU NAMORADO, MOCINHA?! Menina, não pode! esse tipo de atitude no namoro não pode de jeito nenhum. mata o sentimento. eu sei que às vezes dá vontade de esganar, de chutar, de nunca mais falar pra ver se aprende, mas Gabyzinha, pelo amor de Deus, uma semana? não pode! tem que sempre optar pela humildade. orgulho mata todos os sentimentos bons que a gente tem pela pessoa. e pior, quando fazemos essas coisas, a tendência é sempre piorar. na próxima briga, um joga pra 6. na próxima, o outro joga pra 9. quando chegar no 12, meu Jesus, já está aquele show de desrespeito. eu não sei como é o seu namoro, mas se sempre é assim, tome o passo e mude isso já. o Vanderlei era assim no começo. orgulhoso que parecia um pedaço de pau. ruim ruim ruim. não dava o braço a torcer. desde o início, eu quebrei isso nele (senão, eu quebrava era ele!). quando brigávamos, eu sempre mostrava pra ele que a gente podia resolver sem essas bichisses de virar a cara um para o outro. quando ele insistia, eu era mais dura. pô, vai desrespeitar a avó! me ama? então aja de acordo com o sentimento que carrega! amar não é só ficar se amassando não. é ter a humildade de sentar e resolver pepinos com dignidade, sem ficar dando showzinho. Gabyzinha, ouve o que a véia aqui diz. não caia na besteira de dar uma de macho e de ficar disputando pra ver quem cede primeiro, quem dá o braço a torcer primeiro, como se isso fosse humilhação, como se ter a iniciativa pra resolver a briga fosse coisa de maricas. sabe por quê? porque você não vai conseguir sustentar isso por muito tempo. ninguém consegue. e quando você perceber que não consegue e quiser consertar o namoro e quiser conversar com o seu namorado sobre isso e quiser que tudo seja diferente, vai ser tarde demais. porque vai ser tanto orgulho envolvido que você não vai saber por onde começar pra tirar toda essa água azeda de pepino em conserva. e o sentimento que vocês têm um pelo outro vai ficar difícil de localizar em meio a tanto azedume. acredite, eu passei por isso com o Vanderlei. e foi doído pra burro. ligue pra ele, converse sobre isso. namorados devem ser parceiros. e não arqui-inimigos. mesmo nos momentos de briga. hoje, a minha briga com o Derlei dura dois minutos, graças a Deus. por que dois minutos? porque é o tempo que a gente leva hoje em dia pra resolver as coisas.

e sabe Gabyzinha... sobre você achar que nasceu pra ser o homem do relacionamento, é, eu também achava a mesma coisa. eu também achava que nenhum homem podia comigo porque eu simplesmente nasci pra ser machona. mas sabe o que eu descobri depois de chorar e sofrer que nem uma cadela? que mulher nenhuma nasceu pra ser homem no relacionamento, Gaby. o que existem são mulheres autoritárias e homens bananas. quandos esses dois se encontram, parecem que dão certo, mas te garanto que não dão. primeiro porque essa panca de mulher machona, que resolve e comanda, uma hora enche o saco. em algum momento, você vai querer que o seu namorado seja homem e resolva e tome a frente e faça o convite e te galanteie e te faça se sentir valorizada e protegida e tenha iniciativas. homens bananas, que simplesmente obedecem a mulher, não fazem essas coisas. porque ficam sempre na retaguarda, esperando as ordens.

isso quer dizer que mulheres são fracas?? não. elas são frágeis. e há uma grande diferença entre fraqueza e fragilidade.

se você exerce esse papel de machona hoje, querida, repense. não porque você está pecando ou algo assim, mas porque mulher é mulher e homem é homem. cada um com os seus papéis. e quando isso é misturado ou deturpado, há frustração. eu mandava no meu relacionamento e, ao mesmo tempo, exigia que o Vanderlei fosse carinhoso, tivesse iniciativas, me convidasse pra sair, porque na verdade eu me sentia muito desprotegida. mas como ele ia fazer essas coisas se eu mandava em tudo??

não queira ser a machona no namoro, querida. não leva a nada. hoje parece que você tem um talento pra isso, mas com o tempo você vai ver que essa sua atitude tem um motivo por trás. e com o tempo, você só vai se frustrar e arrumar pra cabeça porque homem quando é podado, quando é anulado, vai se transformando em uma ameba imprestável. as minhas brigas constantes com o Derlei também tinham a ver com isso. porque ele não queria ser esse homem inútil. ele queria poder me conquistar, fazer eu me sentir a gatinha dele (tempos bons aqueles quando as coisas ainda estavam em pé huhuhu)... e eu não deixava. eu parecia um general. "vamos conversar sobre isso. faça isso. me ligue. meu Deus, mas você nunca me convida pra nada. eu sei o que é. você está assim por causa disso, disso e disso. vai lá e ligue. pergunte. deixa que eu faço". manja? o cara vai se sentindo um imbecil, com a auto-estima lá embaixo. como ele ia querer me conquistar?? eu simplesmente brochava o lado homem do Derlei!

o mais engraçado é que tudo é tão sutil e parece funcionar tão bem, que você não percebe os erros e vai levando a vida assim. mas quando eu me toquei disso e pedi perdão pro Vanderlei, por todas as vezes que o esmaguei como homem, que o fiz se sentir um merda, um nada, um incapaz, que não presta pra resolver nada, ele chorou, Gaby. chorou emocionado e aliviado. e disse: "será que eu posso cuidar de você agora? será que você me deixa ser o homem aqui?".

te garanto, nega. melhor coisa é você ter ao teu lado um homásso gostoso, que faz você se sentir amada, protegida, que fala coisas como "não se preocupe, eu estou aqui com você". nossa, melhor coisa! com cara macho, a vida é outra! eu cansei dessa vida de patroa. não nasci pra isso, não. pra descarregar essa minha vontade de mandar, vou ver se arrumo uma vaga de chefe em alguma empresa. HOHO. mas no Derlezinho eu não mando mais. tá louco. nunca deu certo, então é porque não foi feito pra ser assim. gosto muito mais dele agora, todo homem... afe me abana.

com carinho, tia Silvana.
 
Domingo, Janeiro 21, 2007
 
Bom, tudo começou com o meu namoro. Há algum tempo que eu andava insatisfeita com o meu relacionamento. O Lucas havia se tornado um cara orgulhoso, frio e negligente fazia uns dois meses e eu não entendia o motivo daquilo. Era como se no nosso namoro tivessem surgido segredos, assuntos dos quais nem eu nem o Lucas conseguíamos conversar. Eu estava infeliz com a postura dele de namorado-que-não-se-importa e ele também parecia insatisfeito com algo que eu não sabia bem o que era (justamente porque os segredos estavam começando a surgir).
Nesses dois meses eu tentei conversar com o Lucas sobre o assunto, mas como conversar sobre algo que você não sabe definir o que é? O que eu sabia era que eu estava infeliz, me sentindo abandonada e desprotegida, sem comentar, é claro, o fator mal amada.
Nós sentávamos para conversar, mas era sempre um fiasco. Porque eu começava a falar de algo que estava me incomodando sem saber muito bem o que era e ele começava a ouvir, com expressão de saco cheio, sem entender do que é que eu estava falando. A única coisa que eu sabia explicar eram os sintomas. "Lucas, eu estou me sentindo sozinha. Você não me dá atenção, não faz eu me sentir amada, protegida, eu sinto que não posso contar com você e blá blá blá...". Ele ficava confuso, pedia para eu citar uma situação específica pra ele entender o que ele fez que me despertou esse sentimento, mas a grande verdade é que eu não conseguia pensar em nada.
Com o passar dos dias, a angústia só foi aumentando. E nós dois nos afastando mais e mais, sem um motivo aparente. Então, resolvi encontrar uma explicação para aquilo tudo: o Lucas estava depressivo por estar sem emprego há um ano, afastado de Deus, por isso estava sendo um companheiro horrível. Era isso. Eu até tinha aqueles argumentos na manga de quem fez terapia por três anos: "as pessoas que estão depressivas se tornam egoístas porque não conseguem olhar para mais nada além da sua dor".
Apesar de este motivo não testificar no meu coração, eu continuei me apegando a ele (afinal, não tinha nada melhor para colocar no lugar). E a angústia foi aumentando absurdamente. Chegou um ponto em que eu só conseguia chorar e comer. Comer muito. Aliás, comer era a parte mais divertida do meu dia já que todo o resto estava uma droga. Quando eu e o Lucas conversávamos era sempre superficial, com um ar de cemitério, como se algo houvesse morrido. Os meus momentos de tristeza (portanto, necessidade de colo) eram completamente descartados por ele porque, para o Lucas, tudo havia se tornado uma grande e única reclamação. Eu apenas mudava o tema.
Paralelo a isso, as minhas exigências não paravam. Eu queria atenção, queria me sentir amada, queria provar para ele que a postura dele de frieza e indiferença estava matando o que eu sentia por ele.
O dia 24 de dezembro à tarde foi o ápice. Neste dia, ele começou a me dar um beijo na boca e eu comecei a chorar no meio do beijo. Ele parou, pareceu preocupado, perguntou o que eu tinha, o que tinha acontecido. Aos prantos, eu comecei a explicar, pela milionésima vez, o que eu estava sentindo: "Você pede por carinho?? Mas eu não me lembro de receber de você. Você ficou bravo hoje porque eu não quis te acompanhar a sorveteria com você, mas meu Deus, Lucas, você nunca me acompanha a lugar nenhum! Você nunca está do meu lado! Os meus problemas eu não sinto que posso compartilha-los com você porque é como se você não se importasse, não quisesse saber! Você não ouve! O namoro está terrível e você simplesmente não quer falar do assunto! Eu só consigo comer nos últimos dias porque é o único momento em que eu me sinto feliz". Eu não falei muito mais do que isso. Eu estava aos prantos. O Lucas ouviu tudo atentamente e, quando terminei, ele ficou uns 15 segundos em silêncio e disse: "Vamos comer alguma coisa?". Eu simplesmente não acreditei. Meu Deus, que insensível!!
A noite tinha festa de Natal na minha casa. Ele foi, mas não olhou na minha cara a noite toda. Estava bravo porque, mais uma vez, eu havia reclamado e cobrado coisas dele. Eu estava moída por dentro. Arrasada. Indignada com a insensibilidade dele.
No dia 25 de dezembro, almocei na casa dele e à tarde conversamos no quarto dele. Foi uma conversa muito difícil, em que eu ouvi da boca dele: "eu tenho que ser sincero com você, Fer. Eu não sei se posso oferecer mais do que isso". Então eu respondi: "então nós vamos ter que terminar porque eu quero mais do que isso". Quando eu disse isso, o Lucas parece que caiu na real e acordou. Porque até aquele instante, era como se ele acreditasse que aquilo tudo ia passar e, alguma hora, eu ia parar de reclamar tanto. Disse isso e já me levantei para ir embora. Ele se ofereceu para caminhar até o ponto de ônibus comigo.
Era feriado, a cidade estava completamente vazia.
No caminho foi um silêncio mortal. Chegando no ponto, o Lucas começou a chorar desesperadamente. Pediu perdão por tudo, disse que queria me fazer feliz, mas não tinha idéia de como fazer isso, que sabia dos erros dele, mas não sabia como consertar. Eu fiquei quieta ouvindo, chorando muito também, mas confesse que havia um certo ar de arrogância dentro de mim.
De repente, um temporal começou. Tão forte que o teto do ponto de ônibus não foi suficiente para nos mantermos secos. A chuva caía com força e, encharcados, nós choramos muito abraçados. Pra mim, naquele momento, tudo o que eu pensava era que aquele relacionamento havia terminado. Não tinha mais jeito. Nós tínhamos tentado, mas a nossa dificuldade em dialogar sobre o que sentimos estava impedindo que nós encontrássemos meios de sermos felizes juntos.
O Lucas pediu perdão por não ter conseguido ser o cara com quem eu sonhava, disse que nunca ia amar ninguém como me ama, que eu tinha mudado a vida dele... Nossa, foi horrível.
Fui pra casa e chorei. O tempo inteiro. Eu acordava chorando e ia me deitar em lágrimas. Até me acostumei com a expressão inchada que meu rosto adquiriu por causa do choro ininterrupto.
Dia 25 nós terminamos. No dia 27, a minha melhor amiga foi conversar com o Lucas no msn. Perguntou como ele estava e começou com umas conversas assim: "Lucas, esquece isso, vai cuidar de você. Essa é a hora de você investir em você. Vai atrás das tuas coisas, dos teus sonhos, esquece isso". No mesmo dia, ela me ligou pra contar sobre o que tinha feito. Fiquei irada. Fazia dois dias que eu tinha terminado com ele!! Eu não tinha a menor idéia do que eu estava pensando, do que eu ia fazer, do que eu queria que acontecesse, e ela simplesmente toma a frente e sai dando conselhos para o cara que eu amo?! Defendendo não os MEUS interesses, mas os de sei lá quem!!
Enfim. Dei um pito nela no telefone. Nem deixei ela terminar a história. Interrompi e disse: "Eu vou te dizer isso e somente uma vez: eu nunca mais quero que você tenha esse tipo de conversa com o Lucas". Ela ficou super assustada e perguntou por quê. Respondi: "primeiro, eu nunca teria esse tipo de conversa com os seus ex-namorados. Segundo, a situação é muito delicada pra você simplesmente dar a sua opinião. Terceiro, você é minha amiga, não dele. Quer conversar sobre o assunto? Conversa comigo".
E como tudo nessa vida tem uma causa e efeito, o resultado apareceu logo: o Lucas parado na minha porta, aos prantos, desesperado, perguntando como podia eu já tê-lo esquecido. Perguntei da onde ele tinha tirado aquilo. "Eu falei com a sua amiga no msn e ela me incentivou demais a esquecer tudo isso, a superar, a cuidar de mim... O que é que você disse pra ela? Que já me esqueceu?".
Acalmei-o e conversamos na sala aqui de casa. Ele falou, falou, falou, eu também fiz o mesmo, e no fim concordamos não terminarmos de uma vez por todas. O Lucas sugeriu que eu pensasse por um mês e, depois desse tempo, que sentássemos conversar de novo. Achei uma boa idéia porque eu não estava em condições de tomar nenhum tipo de decisão definitiva.
Olha, eu não sei em que momento tudo começou, mas as coisas foram piorando muito. Todas as vezes que eu e o Lucas conversávamos, acabávamos brigando. Era muita angústia, dúvida, insegurança e mágoa envolvida. Tanto eu quanto ele estávamos com medo do que acabaríamos descobrindo. "Talvez não seja para nós ficarmos juntos, talvez não seja essa a vontade de Deus", eu pensava e ele, com certeza, pensava também. Isso gerava muita ansiedade e, nas vezes que nos falávamos, brigávamos.
Até que um dia o Lucas me ligou. Ficamos umas três horas no telefone. O Lucas começou a desabafar sobre como ele se sentia no namoro, falar de sentimentos que ele nunca tinha exposto pra mim. Eu não sei exatamente em que momento da conversa isso aconteceu, o que eu sei é que, de repente, é como se tudo o que eu estava vivendo nos últimos dias não fosse nada daquilo. Fosse outra coisa. Sabe o que eu entendi naquele segundo? Que eu manipulei tudo esse tempo todo. Eu controlei tudo. Percebi que sou uma mulher cruel no namoro porque convivo com um sentimento de abandono. Como tenho certeza de que o Lucas vai me abandonar, acabo me vingando dele por uma coisa que ainda não aconteceu, mas, que na minha cabeça, é inevitável, vai acontecer. Aí o que eu faço? Crio situações, manipulo conversas ou causo reações no Lucas, para que eu fique brava com ele e pense "aí ó, está vendo?! É igual a todos, vai me abandonar também. Cretino".
Sabe quem foi a primeira pessoa que me abandonou? O meu pai. Hoje, conscientemente, eu sei que o meu pai não me abandonou, mas no meu inconsciente... Lá está a idéia da Fer de 9 aninhos, que sentia falta do pai porque ele se separou da mãe muito cedo e por isso nunca estava perto. Está no meu inconsciente também a Fer de 13 anos, que tudo o que conseguia ouvir do pai eram palavras de reprovação, como "mas você é mesmo muito burrinha, né Fer?!" e "meu Deus, Fer!! Você esqueceu de novo?! Como você é lenta! Nunca aprende! Perdida!". Tem ainda a de 17, que quando ia mostrar textos que havia escrito na faculdade, escutava do pai dela "tá, dá onde você tirou esse texto? Copiou da onde?".
Outra coisa que percebi a meu respeito é que eu não me permito ser frágil. O Lucas falava ao telefone "eu sempre quis cuidar de você, mas você nunca deixou. Eu sempre quis ser o cabeça, mas você sempre me atropelava com a sua inteligência". Inteligência... Isso pra não dizer arrogância. Entendi também que eu não me permito ser mulher, frágil, que precisa ser cuidada. Eu sou o cabeça. Eu penso como homem! Eu quero resolver, eu quero decidir, eu já detecto o erro no relacionamento, aponto a solução, coloco o plano em prática e ai daquele que não me seguir. Como fiquei assim?
Bom, paralela a está história do meu pai, estava minha mãe, agora divorciada, curtindo com os namorados dela e deixando pra lá esse negócio de cuidar de filho. Então, vendo-me sozinha e tendo que cuidar do meu irmão mais novo, entendi, desde cedo, que frente aos problemas da vida, temos duas escolhas: ou nos jogamos na lama e morremos de depressão, ou sobrevivemos e damos um jeito de superar aquilo. Não é o jeito mais correto de resolver, mas foi a forma que eu encontrei, quando pequena, de sobreviver.
Resultado? Hoje, eu penso que esse negócio de fragilidade é o mesmo que ser maricas. Horrível, eu sei... Mas a grande verdade é que a mulher não tem estrutura para ser o cabeça. Nós não temos estrutura psicológica. Eu estou cansada de resolver, de decidir... Eu quero ser cuidada.... Eu PRECISO aprender a ser cuidada.
E era por isso que o Lucas estava daquele jeito. Ele não agüentava mais as minhas exigências, os meus padrões, as minhas cobranças, a minha insistência em controlá-lo e moldá-lo do jeito que eu quero. Ele estava cansado de não poder ser ele mesmo no relacionamento, cansado de não poder exercer o seu papel, de ficar ouvindo as minhas ordens, sendo pressionado a cumprir minhas normas...
Eu chorei tanto no telefone. Me senti um monstro. É como se essa Fernanda não fosse eu, fosse uma outra pessoa que mora dentro de mim. Me senti horrível. Pedi perdão pra ele e ele chorou muito também. O Lucas já estava perdendo as esperanças porque achava que eu nunca ia enxergar isso.

Eu focalizei tanto nos defeitos dele, mas a grande verdade é que eu não queria ver os meus.

Pedi perdão pro Lucas e pedi pra voltar. Oramos juntos e pedimos pra Deus nos orientar desta vez.

Agora, eu preciso construir uma nova Fernanda. Essa sabe separar o papel de filha do de mulher. Como Deus é fascinante... Ele tira o pus para que a ferida seja tratada. Se eu não percebesse isso, jamais faria o Lucas feliz e jamais o deixaria me fazer feliz.
 
Quarta-feira, Janeiro 17, 2007
 
"vai Gaby, come um carangueijo!", com aquele tom de voz de cara macho e autoridade de um coronel.
"não, João, muito obrigada".
"mas por quê? não quer ou não gosta?".
"aah, na verdade eu...".
"porra, come Gaby!"

peguei uma patinha daquele bicho horroroso e fedido e coloquei na boca. até que era bom.

pode não parecer, mas o João gosta de mim. quer dizer, o cara é um ex-policial, totalmente fechado e emburrado. ninguém do trabalho conversa com ele e, os que conversam, o xingam por ele ser grosso. a testa está sempre enrugada, como quem fala "se me encher, eu soco". ar de cara macho. "o bom da ostra é pegar do mar e pôr na boca, quando ela ainda está se mexendo". comentário mais João impossível. no momento em que eu observava o João preparar os carangueijos, tirando-os vivos do isopor, pensei "essa garrinha do bicho deve arrancar o dedo de alguém. Jesus, quem é que põe a mão nisso?". o João põe. ele os tirava do isopor como se eles fossem de pelúcia. quando a água começou a ferver, fiquei com pena de vê-los se batendo na panela. soltei um "tadinhos...", susurrando. o João ouviu e rapidamente rebateu: "orra Gaby! é rango!". eu não sei se é possível acreditar no que eu vou dizer, mas o João tem um charme. sujeito diferente, estilo Chuck Norris, que se encontrasse na rua um orc, do Senhor dos Anéis, mandava ir a merda. e por alguma razão, ele se preocupa comigo. quer me proteger. "putz, João, e se eu ficar com sede?". ele diz: "Gaby (pausa). você está comigo", como que me dizendo que nada irá me faltar se depender dele. quando viu minha queimadura de sol no ombro, todo vermelho, deu um berro: "porra, Gaby! protetor solar, Gaby, pelo amor de Deus! eu tenho uma caixa de primeiros socorros, tem umas gosma lá que dá pra passar. eu vou pegar", sempre com aquele tom de macho. hoje, estava cheio de piada sobre o colega de trabalho que tem chulé. "aquele lá eu vou cortar o pé com uma motoserra! do jeito que fede o infeliz, deve ter chulé até no joelho!".

sujeito engraçado o João.
por trás disso, tem uma história.
parece cafona, mas quando paramos pra pensar no que alguém viveu, deixamos de elaborar qualquer tipo de julgamento. se o povo que o despreza, por ele ter esse jeitão mais azedo, compreendesse que ele não sabe se expressar por tanta porrada que levou na vida, talvez tivessem a paciência que eu tive e o conquistassem como eu conquistei.
sujeito profundo o João.
 
Terça-feira, Novembro 14, 2006
 
larguei a vida circense a cerca de um mês. percebi que não levava jeito para a coisa quando ganhei alguns colegas de aula no horário em que eu fazia (9h). eles conseguiam subir e descer do trapézio como quem sobe e desce do meio fio. absurdo. pra eu trepar naquele trapézio exigia de mim um empenho físico e uma determinação mental homéricos. depois de um mês tentando desenvolver uma facilidade para as tarefas no picadeiro, percebi que não tinha jeito. circo é divertido, mas... tem que ter tchan pro negócio. e tchan's artísticos nunca foram comigo.

além disso, eu precisava dedicar o meu único período livre do dia (a manhã), para a auto-escola (sim, eu estou no meio do processo de conquista da minha Carteira Nacional de Habilitação). e, bom, antes de virar uma craque no tecido ou no equilibrismo, eu precisava me tornar uma motorista. de preferência, habilitada legalmente.

então, larguei de vez o picadeiro. mas para não me mudar completamente para LazyTown, decidi que precisava fazer outra atividade física. sem saída, voltei às raízes: o spinning (para os mais finos, Bike Indoor). vida triste esta que eu estou levando, a de freqüentadora das aulas de spinning. será que sou só eu que acho que gritar diversos "woohoo"s durante o período de uma hora de puro massacre físico é muito, muito inoportuno?? talvez seja a bola de espelhos grudada no teto (aquelas de discoteca) e as músicas altíssimas as responsáveis por levarem as pessoas daquela academia a se comportarem como se estivessem na balada e não se esvaindo em suor em uma aula de ginástica. é engraçado de observar o nicho. sempre tem uma senhora enxuta, loira e com a barriga repleta de músculos salientes (e normalmente à mostra) sendo disputada por três ou quatro homens barrigudos e peludos, que usam de piadas (normalmente sem graças, que vão de metáforas como "ó hein gente, eu vou chegar em primeiro lugar!" até ataques a concorrência como "olha a pança do Betão! tem que pedalar até a meia-noite para dar resultado!") e de manifestações joviais (como "vamos lá, galera! força nessa perna que ainda tem muito pela frente" ou "oba, vamos prolongar essa aula até umas onze da noite, tá muito fraco isso aqui") para chamar a atenção da enxutona. pelo desespero e falta de originalidade, dá pra perceber o grau de carência.

aí tem a moça super hiper mega emperequetada que consegue a façanha de não derramar 20 ml de suor durante uma hora de massacre (quem faz spinning sabe do que eu estou falando) porque... sei lá eu por quê! ela sai exatamente como ela entrou: super hiper mega emperequetada.

é engraçado.
e deprimente.

chega. tchau.
 
Quarta-feira, Agosto 30, 2006
 
resolvi sair dessa vida sedentária. tentei academia. durou um mês. insuportável. gente chata, exercício tedioso, desânimo total. então, vendo que o negócio era fazer algo divertido, decidi. estou fazendo aula de circo. lúdico, divertido e o professor ainda é meu amigo (cara muito legal). fui achando que seria uma terapia. o que?? terapia?? eu estou descadeirada. o negócio é massacrante. tudo dói no momento. desde braço, perna, até barriga. sim, barriga! 120 abdominais, tá pensando o que. nunca me imaginei pendurada em um trapézio. muito menos que doía tanto. caracas. coi'diloco. circo fitness é pra macho. marica não rende no picadeiro.
 
Quinta-feira, Julho 27, 2006
 
Josefina foi arrancada de seu sono logo cedo por um bizão das montanhas chamado Dolores Silva e Silva. Sua chefe. Este ser eqüino e ignorante, que não respeita ninguém, nem a própria mãe (uma energumena que, há anos atrás, resolveu dar a luz a uma menina), ligou para Josefina às sete da matina para vomitar em sua funcionária suas frustrações a respeito da vida e do tal relatório que não existia, que não havia sido feito por Rosalina, que não estava sobre a sua mesa cedo, era o relatório do dia, importantíssimo, por que Josefina não havia ligado para dona Dolores, dizendo que Rosalina não havia redigido a porcaria do documento??, e blá blá blá. Josefina ficou tão atordoada que nem conseguiu mais dormir em seu precioso dia de folga.

Levantou, se arrumou meio perdida e saiu, andando pela rua, sem saber onde estava indo. A sensação de obrigação, de preciso-tomar-providências, de se-mexa-porcaria!!!, latejava em seu cérebro. Quando chegou em frente à mercearia, uma quadra depois de sua casa, parou para refletir e percebeu que não tinha nada que pudesse ser feito. Nem culpa do pepino ela tinha.

Pra não ficar feio, resolveu entrar no mercadinho. Acabou comprando um xampu que nem precisava. Tudo porque aquele búfalo chamado Dolores, aquele touro babão chamado Dolores, ligou para Josefina pela manhã e a tirou da cama com seus cascos sujos de esterco, berrando no telefone como uma vaca parindo.

Que raiva. Que vontade de mandar ir a bosta. Deus! Mas Josefina é cristã. Não pode simplesmente xingar a chefe e cagar na cabeça dela, como tanto sonhava, porque em seguida se arrependeria do seu comportamento.
Decidiu orar para que Deus mandasse Dolores Silva e Silva para longe. Ou, sendo um pouco mais cristã, que a chefe recebesse uma proposta irrecusável de empreso no Mato Grosso do Sul ou Amapá. "Deus, não quero ir trabalhar! Não quero olhar pra cara daquele javali berrante!" (...................................) "Perdoa as lamentações, Senhor. Me dá paciência. Porque se o Senhor me der força, eu quebro a Dona Dolores no meio".
 
Sexta-feira, Junho 16, 2006
 

O que é um pontinho preto que se anula e não pensa?

Homem manipulado pela mãe.
Estava eu na casa de um camarada, sujeito bacana, cara direito, colega de uma amiga minha, quando fomos convidadas pra jantar. Havíamos passado na casa do rapaz (vamos chamá-lo de Tony) porque a minha amiga tinha que pegar umas instruções sobre um programa de computador com ele. Detalhes da vida de quem não possui vasto conhecimento tecnológico.
Não aceitamos jantar, mas fizemos uma sala. Aquela coisa de a mãe do Tony sentada no sofá, o marido ao lado, e nós duas em pé conversando sobre como as coisas andam difíceis hoje em dia. E pelo o que eu sei, o Tony e a família estão passando por uma pendura. No money. Zéfini. Aperto total. Fases, todos temos épocas assim. Então a mãe de Tony (a chamemos de Damares) começou a contar sobre sua última aquisição: um creme anti-rugas fabuloso. A minha amiga, interessada em cremes em geral e muito indiscreta, perguntou quanto o anti-rugas fabuloso custava. "Ele é um pouco caro... Setecentos reais". Eu, que não era muito da casa, não consegui me contar e simulei uma faca entrando na minha barriga. Dona Damares me olhou com certa reprovação e explicou: "Minha querida, veja bem: só esse creme serve para a minha pele. Os outros, mais baratos, me deram alergias terríveis! Teve um até que me fez ter mal-estar". Não falei nada. Me senti inconveniente em discordar de Dona Damares em seu território, por isso me calei. Não era de boa educação dar uma de faço-justiça-com-as-minhas-próprias-mãos. Mas como uma legítima perseguidora da retidão e do que é justo nessa vida, admito que minha língua coçou para argumentar com aquela simples mulher.
Terminada a conversa de corredor, Tony nos levou até a porta para irmos embora. Comentei, como quem não quer nada, sobre o tal creme anti-rugas fabuloso. "Nunca que eu pagaria isso num creme de 30 gramas". Tony, na mesma hora, ficou ligeiramente vermelho, com leves sinais de raiva, e levantou a bandeira: "Mas é que você não entende. A minha mãe realmente precisa desse creme. Há uns dois anos atrás ela teve um problema sério na pele. Hoje, ela tem que usar só os melhores cremes". Eu fiquei um pouco assustada porque, sinceramente, pensei que o Tony iria concordar comigo. Afinal, nós amamos nossas mães, mas temos discernimento para saber quando elas tomam atitudes idiotas ou sem nexo (no caso, eles sem dinheiro e ela querendo usar cremes hollywoodianos).
Quando estávamos nos despedindo de Tony, Dona Damares correu até nós. "Olha meninas, o colar que eu comprei. Que lindo". Tony riu e disse: "Ai essa minha mãe... Ela sente falta de mostrar suas coisinhas pra mulheres. Só tem homem aqui em casa". Observei Tony e comecei a entender o contexto em que ele vivia. Dona Damares disse: "Olha, cento e vinte reais. É o preço, não é? Falei pro meu marido que foi o Tony que me deu. E o Tony não é nem louco de desmentir, não é?". Tony deu uma risadinha sem graça.Menos educada dessa vez, cortei os chamegos, me despedi e fui saindo. A minha amiga veio logo atrás de mim.Aquele sorrisinho do Tony ficou um tempo na minha cabeça. O psicológico humano sempre me interessou, então fiquei pensando aonde eu já tinha visto aquele sorrisinho antes.
Um sorrisinho de quem é refém de uma idéia. De uma imagem. A imagem da mãe perfeita, a quem se deve veneração e submissão absoluta. A mãe que criou filhos sem cérebro, que estão no mundo somente para servi-la.
Na verdade, é um trabalho diário e meticuloso de manipulação. Dona Damares poderia ser o gênio do crime se quisesse. Afinal, ela o convenceu de que não há outras opções, como "Mãe, se você quiser mentir pro meu pai, vai fundo, mas mente você. Eu não quero fazer parte disso. Aliás, eu não tenho nada a ver com o seu colar". Mérito só dela? De jeito nenhum. Mérito do Tony, que se deixa ser manipulado todos os dias. Que jura que a mãe é feita de vidro e pureza, sem nem um pouco de malandragem. Tá cheio de gente condescendente por aí.

Mas o que eu sei da vida, não é?

Pobre Tony. Não está pensando em que tipo de pessoa ele quer ser. Está deixando a Dona Damares decidir por ele. Situações minúsculas que denunciam grandes problemas.

Quem sabe um dia eu escreva um livro sobre isso.
 
Quarta-feira, Junho 07, 2006
 
Relacionamentos patológicos
Namorados que perdem horas discutindo pontos cretinos

- Que coisa estúpida é essa que você está falando?
- Estúpida não, verdadeira.
- Guilherme, é impressão minha ou você está insinuando que eu estava dando em cima dele?
- Dando em cima? Você praticamente agarrou o cara à força!
- Mas era só o que me faltava... - suspirou indignada.
- Ah é? É tão absurdo assim o que eu estou dizendo? Então beleza. Já que é assim, tenho certeza de que você não vai se importar se eu for passar o Ano Novo com a família da Sabrina, nos Estados Unidos.
- Guilherme, olha a comparação imbecil que você fez. É diferente! A Sabrina é a sua ex-namorada! E ela te convidou para passar o Ano Novo com ela porque a tapada ainda é apaixonada por você.
- Ah, então é assim que você denomina as pessoas que gostam de mim? Claro, desculpe se a minha personalidade não chega a altura da sua.
- Eu por acaso disse isso?
- Não, mas deu a entender.
- Você é paranóico.
- Eu? - Guilherme perguntou assustado, apontando para si mesmo.
- É! Você tem ciúmes de cada ser vivo que se aproxima de mim.
- Olha só quem fala! Paola, você não deixa nem eu atender aos telefonemas da Sabrina quando ela liga no meu celular.
- Você sabe muito bem o que a Sabrina quer com você. Ela te quer de volta. E enquanto você for meu namorado, você não vai ficar debatendo este tipo de assunto com ela. Mas não mesmo!
- Ótimo! Pois então você também está proibida de trocar sequer um suspiro com aquele Luka otário!
- Guilherme, o Luka é meu amigo! Eu gostei dele um dia, EU, e não ao contrário. Não faz sentido você me proibir de falar com ele, se você sabe que ele só me vê como uma amiga e que eu não sinto mais nada por ele desde que eu te conheci.
- Não sente? E como eu vou confiar em você? Você pode gostar dele e não estar querendo me contar.
- Vai se foder, Guilherme!
- Você está brava assim porque sabe que eu estou certo - o Guilherme disse, sentando-se novamente.
- Eu estou puta por você ficar duvidando da sua namorada dessa maneira. Se eu falei que eu não dei em cima do Luka, você tinha que acreditar em mim! E não ficar me chamando de vagabunda por tabela!
- Bom, então você deveria usar essa mesma filosofia comigo. Toda vez que eu estou conversando com as minhas amigas, você tem chiliques. Lembra do escândalo que você fez aquele dia com a Michele?
- O que você queria que eu fizesse? Aquelas suas amigas sim são umas galinhas. Elas se esfregam em você, ficam se oferecendo, só faltam colocar uma plaquinha de "Sirva-se" na testa.
- Isso não é verdade!
- Claro que é, você que finge que não percebe para continuar com a fama de "gostosinho" da sua classe.
- Não fala merda, Paola.
- E também, escândalo por escândalo, nós estamos quites. O que é que foi aquela sua demonstração de masculinidade na festa do Marcos, hein? Você avançou no coitado do Raphael porque, segundo o seu ponto de vista neurótico, ele estava tentando ficar comigo.
- Mas ele estava! Eu vi!
- Guilherme, ele estava a mais de seis metros de mim!
- Ele estava te secando, tá legal?
- E por causa disso, você tinha que bater no coitado do garoto?
- Tinha sim. Não era a primeira vez que ele estava dando em cima de você.
- Está aí a sutil diferença que você simplesmente não consegue entender. Dar em cima é uma coisa, secar é outra. E eu nem percebi nada, estava dançando com você.
- Ótimo que você não percebeu. Não era para perceber mesmo.
- Meu Deus, você está ficando louco... Eu não queria perceber isso antes, mas você está mesmo longe de ser um namorado normal.
- Que merda de louco, o quê! O fato de eu enxergar coisas não me torna louco. É você quem tem que parar com essa sua mania de dar em cima dos seus amigos.
- Eu não dou em cima de ninguém, porra! Pára de falar isso!
- Ah, está vendo?! Ficou bravinha desse jeito porque eu estou certo!
- Não estou brava por causa disso! O que me deixa puta da cara é o meu namorado ficar me questionando como se eu fosse alguma mentirosa!
- Eu te questiono porque você me dá motivos.
- Ah, eu te dou motivos? - com um ar de deboche. - É você que os inventa! Você vê coisas onde não existem!
- Como que eu iria ver coisas onde não existem?
- E eu sei lá! Você vive tirando suspeitas do além. Eu não posso ter amigos meninos porque você acha que todos eles estão dando em cima de mim e...
- Se você tivesse uns amigos melhores e mais confiáveis, eu não teria razão para ficar desconfiado.
- Amigos melhores? Ahan... - Paola então cruzou os braços, olhando para Guilherme sentado em frente a ela. - Defina "amigos melhores".
- Ah... Amigos que... Que não dêem em cima de você, oras!
- Aí ó, está vendo? Você nem sabe porque desconfia de mim. Para mim você gosta de brigar. Paranóico!
- Você está me chamando de masoquista? É isso?
- Bom, Guilherme, você não está me dando outras opções aqui. Tudo me leva a pensar que você é masoquista paranóico!
O Guilherme ficou furioso. Mas isso não intimidou a Paola e ela continuou:
- Masoquista, paranóico e ciumento! - Pausa. - E inseguro!
- Inseguro? Não fala bosta, Paola!
- Se você fosse mesmo seguro como você acha que é, não teria esse ciúme doentio de mim.
- Desde quando não querer ser corno é insegurança? Eu estou cuidando do que é meu.
- Então é isso que eu sou para você, não é? Uma propriedade, uma posse... Machista!
- Antes machista do que corno.
- Guilherme, eu posso não gostar das suas amigas e posso achar que elas se esfregam em você, mas eu nunca disse que você me trairia com elas. Eu nunca desconfiei de você.
O Guilherme ficou em silêncio um instante. Os olhos da Paola começaram a brilhar, lacrimejantes, querendo chorar. Ele sentiu-se péssimo. E ela, com o seu coração dilacerado. Quase deixando as lágrimas caírem, ela sussurrou:
- Poxa, Guilherme... Pensei que você confiasse em mim.
- Não, Paola, olha...
- Pensei que o nosso namoro significasse mais para você...
- E significa, Palola...
Ela levantou o rosto enfurecida, aos berros:
- Não me chama de Palola! Eu odeio esse apelido!
- Você odeia? Desde quando você odeia? - o Guilherme levantou a voz também. - Você adora!
- Não, eu odeio! Eu não quero mais que você chame de Palola. Aliás, não me chama de mais nada! Eu odeio esses apelidos cretinos que você inventa! Você só me inventa apelido idiota!
- O quê? São apelidos super criativos, ok?
- Ah, claro, muito criativos... Palola, Palmeira, Paolita, Pazinha, Pazinha de Areia, Pocahontas, Lola, Lita... Meu Deus, LITA! O meu nome é Paola e você às vezes me chama de Lita!
- Mas você se parece com a filha daquela amiga da minha mãe, aí às vezes eu te chamo pelo apelido dela.
- E desde quando transferir apelido de uma pessoa para outra é criativo?
- Vai, continua! Xinga! Fala mal do que eu faço! Sempre foi assim mesmo, não é Paola? Você nunca gostou de nada do que eu faço para você! É só isso que você faz, só sabe me xingar e me criticar!
- Isso não é verdade. Eu sempre te apoio em tudo.
- Mentira! Você por acaso lembra de quando eu te falei que estava com medo de tirar o siso? Lembra?
- Guilherme, aquilo foi diferente.
- Você riu e perguntou se eu já não era meio grandinho para ter medo de cirurgia.
- Ué, eu fui sincera.
- Você sabe muito bem que eu não gosto de ver sangue. E isso não tem nada a ver com ser "grandinho"!
A Paola ficou em silêncio um minuto. E disse:
- Tá, mas foi só isso também. No resto eu...
- Você nada! Lembra no dia do seu aniversário, que a gente discutiu?
- Ai, o desenho de novo... Guilherme, você não esqueceu disso ainda?
- Esquecer? Como você quer que eu esqueça? Eu fiz aquele desenho para você como pedido de desculpas e você assim que olhou para o papel, riu porque não estava bem desenhado.
- Mas não estava mesmo! Como eu ia saber que aquela berinjela era um coração?
- Eu fiz com pressa, poxa!
- Eu ri porque eu estava brava com você. - Pausa. - E você tinha afundado a cara da minha amiga no meu bolo de aniversário. O que você queria? Que eu te desculpasse assim? - estralando os dedos.
- Foi ela quem começou com aquela brincadeirinha estúpida de passar o dedo no chantilly e sujar o rosto dos outros. Ela veio fazer isso em mim, eu enfiei a cara dela no bolo mesmo. E faria de novo.
- Guilherme, era uma brincadeira.
- Não interessa, eu não gostei.
- Você é um grosso, isso que você é.
- Então é assim, Paola Castanhegue? Ótimo. Pois eu estou terminando nesse momento com você.
- O quê?!
- É isso mesmo. Não quero mais nada com você. Chega! Não agüento mais.
- Ah, você não agüenta mais? - ela colocou as mãos na cintura. - Pois sou EU quem não agüenta mais, queridinho. E sou EU quem está terminando o namoro.
- Mas não mesmo! Eu terminei primeiro!
- Terminou nada! Eu já havia pensado nisso desde que entrei aqui.
- Ótimo!
- Ótimo!
 
Terça-feira, Maio 23, 2006
 
a grande verdade que só sai se espremer

às vezes eu presto atenção em conversas no ônibus de mães falando de seus filhos e me dá arrepios. eu nunca quis ter filhos, sabe. e ainda não quero. eu não quero agora, mas sei que vou querer quando eu casar. é o que todo mundo diz e é o que acontece com todo mundo. e também, o meu futuro marido é louco pra ter filhos, então não tem muita opção (porque eu não posso tirar o direito dele de ser pai). pra mim, filho é sinônimo de despesa e de incômodo. tá tá, eu sei que não é assim depois que eles nascem, mas só de pensar nesse negócio de ser mãe... me dá arrepios. como eu disse, eu sei que vou mudar com o tempo.

ontem eu estava assistindo aquele programa de televisão Supernanny que passa na GNT (e no SBT, na versão brasileira) e vendo aqueles pestinhas, nossa, me deu até tontura de pensar em ter de parar a minha vida por causa de filho. eu entendo que eles são umas gracinhas, que eles são as coisas mais importantes do mundo pros pais, que ter filhos é maravilhoso... mas a idéia não me atrai nem um pouco.

eu sei que não é algo simpático de se pensar. normalmente eu não dou opinião quando o papo é filho. porque antes, quando eu ainda manifestava em voz alta o que eu penso, dizendo que eu acho filho um saco, as pessoas me repreendiam, dizendo coisas do tipo "mas na hora H você vai querer ter filhos do homem que você ama" ou um simples "AI GABY, QUE HORROR!!!". eu sempre levantava as sobrancelhas e dizia "é é, tô sabendo", mas sei lá. acho que só na hora do vamo-vê pra saber.

a grande verdade é que eu sou egoísta (eu quero o meu futuro marido só pra mim) e tenho dificuldades em manter vínculos. ainda estou aprendendo a demonstrar carinho e a me sentir segura dependendo afetivamente de alguém. a idéia de ter filhos com quem vou dividir a atenção do meu futuro marido e filhos pra quem eu vou me entregar completamente de corpo e alma, afe, me dá arrepios. amar dá muito trabalho. eu mal consigo ser uma boa namorada, imagine esposa e mãe!

com a minha sogra? eu sinceramente não tenho idéia de como está. porque eu dei uma sumida da casa dela. nunca mais fui lá e nunca mais fiquei teeeempos, daqueles de qualidade, em que você senta e toma um café. eu sempre passo, dou um beijo, abraço e tchau. eu não sei o que fazer pra essa mulher gostar de mim. então, como eu não sei o que fazer, eu fujo. prático e covarde, eu sei, mas por enquanto é a melhor estratégia que eu tenho. putz, a merda é que eu queria que ela gostasse de mim... estou orando desesperadamente a Deus. vamos ver o que Ele me conta.

releve. eu estou de TPM.
 
Terça-feira, Maio 16, 2006
 
Querido Amigo...

Meu nome é Gabriela e ouço com freqüência os seus conselhos nos programas de rádio. São ótimos. Diria mais: diria que são ótimos e esclarecedores, já que não foi apenas uma vez que os ouvi e consegui aplicá-los na prática em minha vida profissional e até pessoal.

Exatamente por isso que eu estou lhe escrevendo. Estou desesperada e só você pode me ajudar.

Trabalho com um sujeito que nunca ouviu falar de princípios básicos de higiene. Ele cutuca o nariz o dia inteiro! Inteirinho! E pior: faz coisas nojentas com o que tira dos seus dois buracos na face. Coloca o dedo na boca, faz aquelas famosas "bolinhas", brinca de tiro ao alvo... E ele jura que ninguém percebe. Esses dias eu me irritei tanto que gritei pra ele tirar o dedo do nariz. Ficou sem graça, abaixou a cabeça, mas o berro não teve o efeito que eu esperava. Ele continua limpando o salão.

O triste é que não pára por aí: ele trabalha de frente pra mim. Eu sou obrigada a assistir as porquisses dele porque o indivíduo está estrategicamente posicionado no meu campo de visão.

Isso vai totalmente contra os meus princípios cristãos, é verdade, mas acredite, eu não paro de perguntar pro céu "Jesus, o que o senhor faria se tivesse com o senhor um anjinho que cutucasse o nariz na Sua abençoada presença?".

E a neurose? A neurose é a pior. Eu não consigo tocar em mais nada no estúdio. No telefone então, nem com promessa. Porque ele limpa bem o salão e daí sai espalhando seu DNA verde por todos os cantos da sala. Só pra se ter uma idéia do náipe do cidadão, enquanto eu escrevia este texto, ele enfiou o dedo no nariz 4 vezes.

Não reparar nele eu já tentei. Não obtive sucesso. Atos como este puxam os olhos, ainda mais o sujeito estando bem na sua frente.

O que eu faço?
Falo com ele?
Falo com o chefe?

Gabriela
 
Quarta-feira, Abril 26, 2006
 
enquanto comia um bolo fajuto de baunilha, pensava em como a vida é engraçada. presa em um estúdio de FM, ao vivo, refletia sobre suas mãos atadas. depois de acenar para o operador do estúdio da frente (tudo é forrado por vidros por aqui), voltava-se a tela plana do computador, adquirida recentemente pela cúpula da empresa, questionando-se sobre o certo e o errado. o dia estava bonito lá fora. sol, ventinho fresco, sombras, árvores frondosas, e ela angustiada com a dúvida olhando entediada para a tal da tela plana, que no fim das contas não fez tanta diferença porque o computador continua o mesmo banguela sem vergonha.

a dúvida, para muitos, poderia ser estúpida e descartável. ainda mais sendo a respeito de Deus. naquele estúdio de FM, ela pensava o que Deus andava pensando de seus comportamentos. a coisa nunca a tinha pegado assim, de forma tão existencial, tão densa. sequer tinha coragem de olhar pra cima, em direção ao teto, porque temia que os olhos de Deus estivessem ali, sedentos, pedindo "fala, fala, pode falar". eram tantos pecadinhos diários. não suportava o cheiro do cara que fazia a manutenção do estúdio, mentia pra fugir dos passeios chatos com a parentada, inventava desculpas para faltar as reuniões do grupo da igreja, atentava o namorado, dava cotoveladas no ônibus na ida pro trabalho, se irritava com velhos, pisava em formigas, não tinha paciência com a mulher do seu pai, era gulosa nas churrascarias...

continuava olhando pro monitor de tela plana. chiquérrimo. uma tela tão linda pra um computador tão defasado. exatamente como ela se sentia. um desconforto a pegou na cadeira quando pensou que todos os seus pecadinhos eram vistos de cima, numa espécie de camarote divino, pelo Todo Poderoso. Aquele que a tinha criado devia estar reprovando tudo o que ela andava fazendo. vergonha. os princípios que carregou a vida inteira em seu coração de moça, andavam meio largados nos bueiros da vida. culpa. sentia-se desvirtuada. sentia vontade de deletar sua existência.

mas continuava presa no estúdio de FM. com as mãos atadas. agora, com os olhos cheios de lágrimas.

foi então que Deus colocou a mão no seu ombro.

e ela chorou como se precisasse regar o mundo.
 
Quarta-feira, Abril 19, 2006
 
mas o que é uma bronca do chefe ou um tropeço na rua perto das represálias da sogra? é coceira no suvaco. é nada mais do que um fio branco preso em sua calça preta. praticamente nada. uma pesquisa feita recentemente mostra que nesta era moderna, o problema sociológico contemporâneo que está em alta se refere às sogras. sim. mulheres que vivem uma constante sensação de perda e que estão dispostas a lutarem por aquilo que acreditam ter perdido e que acham que ainda há tempo pois o casamento do filho ainda não foi consumado. cerca de 300 namoradas foram consultadas pela pesquisa. uma das constatações feitas é que essas namoradas que sofrem por causa de problemas com suas sogras, depois de se sentirem escrachadas e tratadas como reles meretrizes, superaram e estão de pé, peitando a vida e contando até dez. "o que não se faz pelo cara que você jura que vai te fazer feliz? atura até a sua mãe falando que não criou filha pra passar por isso, pra ser maltratada", conta uma das consultadas.

a grande verdade é que as Donas Violetas (nome fictício e aplicado de forma coletiva a todas as sogras, referindo-se à flor para a situação ficar muito muito irônica) são afim do próprio filho. pelo menos é o que aponta a pesquisa. toda mãe, assim que o filho começa a namorar, começa até a falar com o sujeito usando um certo tonzinho erótico e, pasmem, a jogar charme. muito sutil, é verdade, porém nítido como cocô na sola da bota pra pessoas que fazem parte da parcela da nação que fez mais de dois anos de terapia (psicodrama, psicanálise, não importa. vamos nos abster de preconceitos). tudo acontece no inconsciente destas senhoras, por isso as manifestações normalmente são bizarras.

só pra você ter uma idéia da doença, segundo a pesquisa, a namorada, nessas horas, se sente ameaçada pela sogra como se ela fosse uma ex-namorada e não como se ela fosse mãe do seu amado. a sensação é de concorrência literal!, aquela que vai além do afeto, que envolve físico, sedução, etc etc etc. "elas jogam charme, meu Deus do céu!", berra umas das entrevistadas. realmente, é muito esquisito. os namorados, que também foram consutlados, têm noção, mas não têm noção. dá pra entender? eles sabem que existe algo errado no relacionamento com a mãe, mas não sabem explicar exatamente o que é. das 300 entrevistadas, 248 afirmam já terem terminado o namoro pelo menos uma vez. no término, elas dizem ter falado de seu desespero e angústia aos parceiros, e de muito mais, da forma mais crua e direta possível. os namorados, contam elas, no momento do término choraram, pediram por mais uma chance, concordaram com algumas coisas, discordaram de outras, mas não se sabe ao certo. o que se sabe é que a doencinha ainda está lá, dentro das mentes masculinas. coisa muuuuuito preocupante. casar assim? "RÁ! NEM FODEND*!", dizem elas. querem mais é esperar até que todas as patologias apareçam e elas possam fazer uma escolha completamente consciente.

são mulheres que amam. os namoros são legais, mas esse impase dos homens com suas mães é complicado. compromete a personalidade do sujeito. segundo a pesquisa, as namoradas continuam preocupadas. as coisas melhoraram 500%, é verdade, não é permitido tirar o mérito dos namorados. eles se esforçam pra burro porque sabem que não são tratados exatamente como filhos pelas donas Violetas (algumas chegam a tratar a cria como macho gostosão, só que eles não sabem disso. mas vamos com calma nas informações). houve melhoras, dizem elas. antes, era sempre a mãe em primeiro lugar. agora a preferência é das namoradas, o abraço, o carinho, os segredos, tudo pras amadas. tudo bem que as sogras olham com aquela cara de assassino, com ódio, com vontade de entrar no meio e dizer "chega dessa putaria! some daqui sua vaca!", mas ainda assim, é preciso reconhecer que os namorados colocaram algum limite nas senhoras. mas as namoradas continuam preocupadas.

o mais interessante da pesquisa vem agora: 100% das namoradas afirma esperar que Deus fale com as sogras para que elas venham a amar suas noras de coração e admitem que é horrível se sentirem rejeitadas. esse negócio de "não tô nem aí" é pras máquinas. claro que elas querem ser aceitas.

deixa eu encerrar antes que eu chegue no nome dos futuros filhos.
 
Sexta-feira, Abril 07, 2006
 
odeio quando o cabelo fica seboso por causa do vento. porque normalmente, quando isso acontece, você está em plena vivência do seu dia. está indo pro trabalho ou indo para algum lugar fazer matéria (no caso dos jornalistas), ou está apenas indo ou voltando do almoço, o que quer dizer que ainda tem um dia inteirinho pela frente.
aí você fica lá, tentando de milhares de formas fazer penteados estratégicos que escondam, ou pelo menos disfarcem, a sebozice do seus cabelos. e claro, fica amaldiçoando as benditas forças da natureza porque você tinha lavado os fios com tanto amor no dia anterior! ainda mais você que tem cabelos enrolados, aí dá o dobro de trabalho no período pós-banho. (não como é como essas lisas que têm por aí que lavam, secam com a toalha, dão uma leve batidinha e pronto, estão arrumadas tanto para ir ao cinema quanto para dançarem em um baile.)
e o mais bizarro é que, quando o cabelo está seboso de pegar vento, ele fica grudento na raiz e cheirando creme nas pontas (afinal, você lavou o dito cujo no dia anterior). então tem que esconder os fios em um rabo de cavalo. normalmente nesses dias você não trouxe nada para amarrar o cabelo. até pede emprestado para uma colega, mas aí ela olha pro seu cabelo, olha pro rabicó dela, faz uma cara de nojo... nessas alturas você já disse "tudo bem, não precisa", e fica lá, tentando inventar algum coque que segure-se por si só. nesses dias, o horário de trabalho parece que se estende por 6 anos. só depois de seis anos você consegue ir pra casa e lavar o cabelo (de novo). tempinho de outono xexelento. mulher sofre, viu.
 
Segunda-feira, Abril 03, 2006
 
depois de muito suor e lágrimas, você conseguiu alguns resultados importantes na sua missão de largar essa vida de afobada-grudinho. você descobriu que tem um potencial para ser mais controlada. aliás, você descobriu que todos têm capacidade para tanto. e descobriu mais com esse negócio de pensar antes de se afobar e sair tento iniciativas: amor é muito mais ação do que sentimento. "O amor não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se alegra com a injustiça, mas sim com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" - I Coríntios 13:5 a 7. todas ações. nenhum sentimento. isso quer dizer que, se eu estou com raiva (sentimento), se estou magoada (sentimento), se estou irritada (sentimento), não vou destratar quem eu amo (ação). porque eu quero estar com ele (opção), mas preciso encontrar um jeito de conversar sem me deixar levar por sentimentos. afinal, estar com raiva não me dá o direito de ser cruel, certo? quem nunca leu isso em um daqueles textos supostamente escritos pelo Shakespeare, enviados por e-mail.
 
Quarta-feira, Março 22, 2006
 
- você vai na academia hoje? - você, ser humano do sexo feminino, pergunta.
- não sei... - ele responde.
- a gente podia se ver, né...
- é.
- quer que eu vá até a sua casa pra gente fazer alguma coisa?
- não sei...
- se quiser, eu vou, sem problemas.

quando você desliga o telefone meio frustrada, depois de combinar com o namorado de se encontrar com ele só no final da semana, você se sente meio idiota. o relacionamento já dura há alguns meses e esta é a primeira vez que você pára para refletir a respeito das vezes que ele te convidou para fazer alguma coisa. o número corresponde ao total de eletrodomésticos que você possui no seu apartamento de solteira: pouquíssimos. contraste total e absoluto se o mesmo número for colocado ao lado das vezes em que o convite partiu de você. seria como contar quantos períodos menstruais uma mulher de 40 anos teve em toda sua vida. a conclusão é que o seu namorado te ama, claro que sim. ele só não está nem um pouquinho interessado em você. pra falar a verdade, você não tinha idéia de que as duas coisas poderiam andar separadas, amor e interesse. também não tinha a menor noção de que a mulher, para ser interessante, precisava se policiar para não cometer alguns erros discretos (porém determinantes), como se mostrar muito carentona e não dar espaço para o sujeito ter iniciativas. prometeu a si mesma tomar mais cuidado na próxima. a chance de colocar o aprendizado em prática não demorou. no outro dia, lá estavam vocês ao telefone.

- oi amor, - ele começou - hoje eu vou levar aqueles cd's na casa do meu amigo, ali ao lado do shopping. que horas você sai do trabalho?
- às cinco. por quê? quer que eu vá até o shopping pra gente se encontrar?
- é, pode ser. aí a gente dava uma volta e depois...
- depois a gente podia voltar juntos pra casa - você completou, toda feliz.
- é. lá por umas sete da noit...
- aaaaii amor - você interrompeu - agora que eu lembrei, eu não posso, tem reunião até mais tarde hoje.
- ah - com aquele tom de "por que não disse antes?"

desligaram. novamente, a nítida sensação de idiotice. quando ele estava prestes a fazer o convite, você simplesmente saiu na frente, tirando toda a mágica do processo. a culpa, nesses meses todos, foi sua. a sua afobação, a sua ansiedade, a sua carência, te impedem de relaxar e deixar as coisas fluírem. "que raiva", você pensou. fez mais promessas interiores. se comprometeu a se acalmar e deixá-lo falar a frase completa no próximo diálogo. e este veio rápido.

- amor, eu vou viajar esse final de semana com o pessoal da banda - ele ligou para compartilhar.
- quer que eu te ligue quando você estiver lá, amor? - você já foi direto ao assunto.
- ahm... tá, pode ser.
- boa viagem, amor. se cuida lá. eu te ligo.

desta vez, o "feeling" veio antes mesmo de o telefone ser colocado no gancho. "o que tem de errado comigo?", você indagou. o que mais te desesperava era saber que isso a tornava desinteressante ao extremo. mulher na mão deveria levar um aviso de PERIGO no pescoço. por trazer desânimo e mesmice para qualquer relacionamento.



CONTINUA...
 
Sábado, Fevereiro 18, 2006
 

Platônico tu és

Eu sempre desconfiei mesmo que amor platônico não tem nada a ver com sentimento.
Você amou aquele sujeito pelo menos uns dois anos da sua vida. Fora os "tantos anos e meio" que você deixou de lado agora pra não ficar algo tão assustador. Dois anos tudo bem. Dois anos e meio não dá.
O dito cujo é do seu pessoal do de-vez-em-quando. Aquelas 20 ou 25 pessoas que você conhece e que volta e meia se reúnem para saírem juntas. Vamos estipular um tempo... Uma vez por mês, mais ou menos. Ou seja, você vê o cara uma vez por mês.
Desde o primeiro dia em que você o viu, você se apaixonou por ele. Assim, do além. Pá-bum. Bateu o olho e caiu de quatro, cinco, seis. Hoje você suspira, meio rindo, pensando enquanto lembra: "Ah, se eu soubesse que foi nesse dia que eu coloquei o pé na merda, talvez eu não estivesse sentada nela nos dias de hoje".
Teve uma vez que o pessoal viajou todo junto. Nessa viagem você resolveu fazer o pior negócio da sua vida. Contar? Não. Pedir pra contarem. O resultado foi podre. Ele deu em cima de você, mas por algum motivo, não aconteceu. Meses depois, você ficou sabendo que ele estava só brincando... Que graça esse garoto.
Outras festas mais tarde, ele chegou até ao cúmulo de te trancar no banheiro junto com ele e ficar fazendo terror psicológico de que ia te beijar. Porém ele nunca chegou a efetuar o ato.
Mais festas passaram e o filho da puta sempre alimentando aquele sentimento angustiante de "Agora vai!". A verdade? Nunca foi.
Teve uma época até que você ficou um ano e alguns dias sem ver o cidadão. E isso te fez um bem enorme. Você tinha até aqueles dias mais felizes em que você sentia forte a sensação de que o havia esquecido completamente. Puxa, que vitória! Tinha acabado o seu lado Maria do Bairro e finalmente você ia viver uma vida saudável e normal.
Bom, tudo estava ótimo e você estava louca pra desfilar o seu novo perfil bem-resolvida-eu-sou. Ia ter uma reunião do pessoal no final de semana. A oportunidade que você precisava.
É, mas o "bem-resolvida" do seu sobrenome tinha tomado ares um tanto frágeis sem que você sequer percebesse. O escudo era de papel de seda e você descobriu isso do pior jeito possível: quando foi contra a espada para se defender.
Lastimável ou não, você descobriu que ainda sentia algo por aquele garoto. Nos primeiros momentos, você fica naquelas de achar que é bobeira do seu cérebro e só pensa, pelo menos umas setecentas e vinte e quatro vezes por minuto: "Que isso, garota. Você tem punho! Por isso já superou esse garotinho insignificante".
Tão insignificante que agora aí está você, deitada na sua cama, só repassando na sua mente, pra ficar bem gravado, o quanto você é estúpida. Foi difícil pra você aceitar isso, mas você acabou engolindo quando viu o indivíduo ficando com outra na sua frente. Ele quis, ela cogitou e antes que você pudesse dizer a palavra "pé", lá estavam eles se beijando. A sua vontade era sair gritando, mas você é uma menina fina, você não poderia fazer tal baixaria. Então optou pela auto-mutilação e ficou lá, fingindo estar prestando atenção nas músicas que tocavam e dançando sorridente, até os dentes doerem de ficar à mostra. Você dançava a 1000 milhas de distância do casalzinho, mas, como se todas as forças da natureza estivessem contra você, era do lado deles que você acabava a música, sendo empurrada por todo mundo lá dentro. Isso pareceu o suficiente pra você, certo? Claro, afinal, o que mais poderia acontecer? Já está tudo mais que afundando... Pior que isso, só dois disso, não é o que o povo diz? Bom, acreditem ou não, o povo estava errado. No final da festa, depois de ele dar o último beijo na boca da Zigui Frida, ele veio se despedir de você com um abraço e um suave cochicho no ouvido: "Eu te ligo pra gente ir ao cinema".
Ahan, deixa eu ver se entendi. Cinema? Gente, esse garoto não tem escrúpulos? Que espécie de ser humano é esse? Sim, minha cara, ele também tem seus probleminhas psicológicos. Talvez seja necessidade de auto-afirmação, talvez seja o famoso distúrbio do não-caga-nem-desocupa-a-moita, ou talvez ele simplesmente seja um cretino. Quem é que sabe? Nem a talzinha da Zigui Frida sabe. Mas o que você sabe é que você gosta dele.
E é aí que você pára por apenas cinco segundos e permite que sua razão dê o primeiro palpite nessa história toda: por que, no mundo, você gosta desse garoto? Por que você o coloca na posição de ideal? E principalmente: por que raios você liga para o que ele pensa?
É... Não foi dessa vez. Você achou que tinha gostado certo, mas viu que de certo mesmo só o casalzinho daquela festa. Não que eles tenham nascido um para o outro, mas é nos atos que costuma aparecer a personalidade do autor.
Então você volta no começo disso e repete, olhando para o teto: "Eu sempre desconfiei mesmo que amor platônico não tem nada a ver com sentimento". Que bom que você descobriu a tempo...


Gabriela K. Brandalise
30 de Maio de 2002

..:: revival. beijos.
 
Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006
 
Dança de uma enrustida

Ele estendeu a mão. Você hesitou. Era só o que você fazia o tempo todo, hesitar, ter cautela, ponderar. Ele só queria uma dança. Você pensou e refletiu, pesou os prós e os contras.
Percebeu que andava abandonada e desprotegida no segundo em que os dedos dele terminaram de fazer o círculo em torno do seu corpo. Ali, naquele espaço de tempo, a sua cabeça foi para trás e você sentiu-se tonta com a infelicidade que te saturava. A sua respiração acelerou. Você não era tocada assim há tanto tempo... Finalmente alguém te queria de novo. Mas não, espera. Não era isso. Pessoas sempre te quiseram. Era você quem não permitia. Você estava fria e enrijecida, o coração na defensiva, o corpo fechado e morto. Então, ele deslizou os dedos pelos seus ombros e você quis chorar. Mais uma tontura. Sua cabeça doía. Ele respirava próximo a você e te tocava os dedos. As suas mãos, as suas mãos feias. As suas mãos insensíveis e inertes, agora estavam trêmulas. Você se cobrava tanto, era tão dura com você... Se machucava, se feria. Sempre achou que merda era o que merecia. Mas ele não, ele queria te fazer feliz, te fazer bem, te fazer mudar.
Ele sorriu e te assegurou. Aquilo seria seu pra sempre. A dança terminou e apenas tinha começado.
 
Segunda-feira, Janeiro 23, 2006
 
mulheres são trocinhos molinhos e fininhos

tipo casquinha. sabe? aquele negócio beje de comer que é vendido junto com o algodão doce. casquinhas. trocinhos molinhos, fininhos e... docinhos. e assim como ninguém sabe do que são feitas as casquinhas, normalmente os homens, as crianças, os pais, os amigos e os irmãos também não sabem do que as mulheres são feitas. pois venho por meio desta tentar explicar, em uma linguagem acessível e popular, do que as mulheres (entre meninas, garotas, nanicas, executivas, gostosonas, donas de casa e vovós) são compostas.

mulheres possuem uma estrutura sentimental feita de patê. isso quer dizer, na linguagem popular e acessível que propus no início, que elas são necessitadas e carentes. basicamente, a mulher quer ser amada e conquistada todos os dias pelo seu ficante/namorado/marido/amante/rolo/amigo colorido. ela não tem pique emocional de ficar correndo atrás o tempo inteiro de quem ela gosta ou de ficar aguardando, esperançosa e iludida, um sinal de amor vindo do sexo oposto. um fato que poucos homens percebem (ou percebem com o tempo ou nunca percebem) é que a estrutura emocional da mulher foi feita (e muito bem feita) para a sedução. ela nasceu para fazer o indivíduo se sentir atraído, para que então ele venha até ela tentar conquistá-la. conquistar, sabe. aquele negócio de o cara convencer a moça de que ele é um cara que vale a pena. de que ele pode fazê-la feliz. e as mulheres não precisam ser conquistadas apenas na fase da paquera, é o tempo inteiro. elas querem ser conquistadas no namoro, no casamento, no fico, no rolo, no pulo de cerca...

se os papéis se invertem, ou seja, se a mulher precisa ficar correndo atrás do cara, ligando para ele sem receber nenhum tipo de retorno, implorando por atenção, ela se magoa. por quê? porque ela não agüenta. novamente recorrendo a linguagem acessível e popular que propus no início, o coraçãozinho dela não suporta o sofrimento. mulher é sensível demais pra ficar implorando por atenção. por isso este é o papel do homem. mostrar amor, mostrar que a quer, fazê-la se sentir segura. para que então, a mulher, sentindo-se amada, fique a vontade para ser uma ótima companhia: carinhosa, melosa, atenciosa, grudinho, etc etc etc. convenhamos, né, não existe ser vivo mais sentimental e sensível do que mulher. pra ela ser carinhosa com um homem (ficante/namorado/marido/amante/rolo/amigo colorido), ele só tem que demonstrar que a ama. ligar, deixar claro que se importa, fazer uns mimos... como recompensa, ele vai ganhar o céu. porque ninguém é tão carinhoso, presente, companheiro, fiel e terno quanto uma mulher que se sente amada.

as mulheres são florzinhas. isso não quer dizer que elas são frescas, quer dizer que elas são delicadas. conhecer o interior de uma moça é como abrir um pacote de presente sem rasgar o papel. tem que ter atenção com o que está fazendo, carinho e paciência. não adianta sair rasgando tudo, na base do grito ou da deselegância. a única coisa que você vai conseguir é afastá-las. outra dica: entregar o teu coração para elas também é tiro certo (mais uma vez, recorrendo a expressões popularmente conhecidas). não precisa ter medo. a gente gosta de você.
 
Quarta-feira, Janeiro 04, 2006
 
ele é meu estojo de lápis de cor
com borracha, esfuminho e apontador
ele é meu arco-íris que a chuva traz
é meu refrigerante cheio de gás
ele é minha torta de limão
repleta de merengue e massa de empadão
ele é como cheiro de café pela manhã
tomado de pijama, pantufa e sem sutiã
ele é a minha câmera digital
minha terapia ocupacional
ele é meu tesouro
o meu bebedouro
minha jaqueta de couro
ele é minha culinária refinada
minha pizza com borda recheada
ele é o meu cd duplo da Madonna
minha declaração de amor mais cafona
ele é minha festa à fantasia
com malabáris e pirofagia
ele é meu acervo de MPB
ele é minha vida de A a Z
ele é muito mais do que lembrancinha
é minha bolsa com forro de bolinha
ele é meu cabelo cheio de fios
é minhas compras em Beverly Hills
ele é a ausência de todo mal
ele é o meu óculos de grau
ele é como ficar bem num biquíni
ele é o meu Reinaldo Gianecchinni
por te amar com este calor
é que te escrevo meu amor
para afastar a angústia que bate
me entupo de chocolate
meu coração virou farinha
longe da boca gordinha


*releitura da música Meu esquema, do Mundo Livre S/A
 
Terça-feira, Janeiro 03, 2006
 

o controle é espuma

tudo sob controle sempre foi o seu lema. gente feliz é gente que sabe exatamente o que quer, que horas quer e o quanto quer. e quando os eventos da vida aparecem, os quais deveriam supostamente surprender-te, você os recebe como estatísticas. fatos previsíveis, que você já tinha previsto, porque faz parte da sua vida prever.
pessoas: pessoas você também tenta prever de todo jeito. quando você já sabe o que o outro vai fazer, é possível, na sua cabeça, ser mais feliz. estar tudo sob controle é mais saudável. tudo caminhando como o planejado.
até que alguém explode com você. o sujeito está magoado e chama o seu talento de prever (você realmente considera isso um dom) de controle. "eu? querendo controlar você? imagina!", você responde escandalizado. "desde quando eu tento te mudar, te deixar do jeito que eu quero?? por favor...". na hora, você se sentiu muito injustiçado e incompreendido.
os dias foram se passando e as reclamações continuaram. você nem aí. argumentando, falando, discordando, não deixava quieto. até que um outro dia, em casa, enquanto comia um cachorro-quente com salsicha de frango pra não sair da dieta, você resolveu dedicar uns minutos para avaliar o que o seu colega estava alegando. e em uma conversa esclarecedora de você com você mesmo, tu começastes a lembrar de tua infância. foi uma boa infância, quer dizer, você tinha amigos, estudava em um bom colégio, morava em uma rua bacana, tinha pais legais (que não te agrediam fisicamente, não abusavam de você e não te deixavam passar necessidades), uma mãe um pouco nervosa, é verdade, um pai que te cobrava algumas coisinhas ........................... tá vai, o seu pai te cobrava bastante coisinhas. na verdade, ele... te massacrava o coração com tanta cobrança e exigência. enquanto o cachorro-quente repousava no pratinho, levemente abandonado, você olhava para um ponto fixo, pensando em como os seus sentimentos foram pisados diversas vezes por seu pai. os seus olhos se encheram de lágrimas de lembrar o quanto ele te achava burro e incapaz e o quanto ele queria que você fosse outra pessoa. qualquer uma, menos a que você era. e nada do que você dizia, nada, absolutamente nada, era válido. tudo o que saía da sua boca, tudo, era estúpido e gerava no seu pai, necessariamente, um comentário depressiativo. "parece que é idiota!", ele dizia.
sem saber, o seu pai criou um ser humano complexado e esquisito: você. basicamente, você se sentiu um nada por muito tempo. o seu cachorro-quente já tinha virado turismo para mosquinhas de frutas enquanto você se ocupava com o choro, lembrando que precisou fazer terapia por um bom tempo para conseguir se sentir melhor consigo mesmo. você fez isso e até que teve sucesso, mas acabou esquecendo de entender que não precisa agir como o seu pai com as pessoas que você ama. "Amar é... Controlar e sufocar todos os sonhos e opiniões do outro". pelo amor de Deus, não!
Jesus... você estava chocado. "eu controlo as pessoas. mas por quê? por que eu faço isso?". pensando mais um pouco, milhares de respostas lhe ocorreram. umas delas é porque 1) você tem medo de ser desvalorizado de novo e também porque 2) você aprendeu que controlar é demonstração de amor e principalmente porque 3) você é tão medroso que criou um modo de se defender de possíveis retaliações. você tem tudo sob controle bosta nenhuma. coitado de você. tu és só mais um cagão, que se pela de medo do incerto, de amar alguém e ser rejeitado, de alguém perceber que, no raso e no fundo, você está entupido de inseguranças.
"mas e agora? como eu faço?". sinceramente? você não tem a menor idéia. afinal, como é que você vai mostrar pra quem ama que não quer mais ser assim? ninguém vai acreditar. ainda mais agora que você já magoou, feriu, desrespeitou e desconsiderou. putz, deu muita vontade de chorar.
refletindo mais um pouquinho (a essas alturas o cachorro-quente já havia sido levado por formigas), você se determinou a se abrir mais para a vida e empurrá-la menos com suas previsões e estatísticas profissionais, amorosas e familiares. claro, você tem pontos de vista interessantes, mas é possível manifestá-los sem encarnar o seu pai. existe uma pontinha de esperança: você tem competência para ser uma pessoa original, fazer do seu jeito, um jeito totalmente novo, jamais visto por ninguém, nem pelos seus pais, nem pelo mundo inteiro. e daí que você apendeu com o seu pai a controlar? controle é pra idiota.

você só queria conseguir explicar isso para quem anda magoado com você. "desculpe. eu juro que não fiz por mal".
 
Segunda-feira, Janeiro 02, 2006
 
Bem mais ou menos o garoto que eu gostei, Silvana

A questão é: se o cara não for tão bonitinho, eu não dou a mínima. Esses dias mesmo encontrei com um que era assim, tão jaguara, mas tão atencioso e sutil e cheiroso. Enquanto mulher e pessoa, me satisfazia, mesmo com a ausência da beleza. E de um dente. Quer dizer, não que falte, de forma concreta e radical, a beleza em si. De alguma forma, sendo atencioso, sutil e cheiroso, o guapeca conseguiu ser bonito. Tão bonito que qualquer gostoso, de conteúdo questionável, passa a ser um tão humilde mosquistinho. E beleza passa a ser um fator puramente estético, que puxa opiniões racionais do tipo "é bonito e ponto. é feio e ponto". Fatores que se somam a um contexto. Porém não o definem.
Tirando esse blá blá blá filosófico-analítico-mala de lado, o negócio é que ver beleza em alguém é mais do que enxergar seus traços externos e analisá-los de acordo com padrões disseminados pela burguesia (blá blá blá filosófico de novo). Você precisa pular essa muretinha do ser-fútil-é e entender que um abracinho macio vai te fazer muito mais feliz do que uma foto sua na estante com o amante galã. Não que o galã não possa ter uma abracinho macio, mas por favor, honestidade aqui, Silvana. Quantos caras realmente maravilhosos-tipo-pára-trânsito você conheceu que prestam? Sério, quantos? Vai vai, Silvana, de verdade, quantos?
Talvez eu só esteja revoltada com os caras poderosos. Ou deslumbrada com os jaguaras. Existe ainda outra hipótese: talvez este seja só um pensamento que me ocorreu, nada realmente a ver com estilos de vida ou gostos fixos. Afinal, a gente vai vivendo e se surpreendendo.

"As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos" - Machado de Assis (obrigada pela referência, Bia)

Pense nisso tudo, Silvana. E pare de ser tão fútil, minina.
Da sua grande amiga.
 
Terça-feira, Dezembro 27, 2005
 
quem sabe o chato virou um príncipe

Vitória estava apaixonada por um xarope. não tinha formato de frasco, mas o indivíduo era um xarope. tinha a mania de corrigir erros de português nas frases dos outros. não precisava ter intimidade com a vítima, corrigia sem dó. até porque, não via a iniciativa como algo incoveniente. acreditava realmente que estava fazendo um bem para a humanidade e transformando o mundo em um lugar melhor. "ir até lá é uma perca de tempo". rápido como um assovio, ele lançava: "perda de tempo". caso ouvisse alguém comentando que "talvez seje menos trabalhoso...", novamente ele saltava: "talvez seja menos trabalhoso". um mala talentoso.
Vitória o amava perdidamente. até mesmo nos instantes em que o cara a corrigia. ela amava um xarope e não tinha nada que ninguém pudesse fazer a respeito. a propósito, o indivíduo era um chato também porque duvidava de tudo. nada o convencia porque, em sua mente esquisita, conceitos de certo e errado já estavam prontos. tudo o que fosse contrário ao que acreditava ou que se opusesse ao que ele havia aprendido, era metralhado. se alguém se atrevia a dizer perto dele que "eu odeio meu pai porque ele traiu a minha mãe e até hoje, a trata como lixo", o xarope logo revidava dizendo que "os assuntos pendentes entre seus pais, que são da atmosfera marido-e-mulher, não deveriam interferir no que você pensa a respeito do seu pai. se ele não foi um bom marido pra sua mãe, ela deveria ter feito outras escolhas, como por exemplo ter se divorciado dele. você deveria considerar apenas a performance dele como pai e não como marido na hora de decidir se o ama ou não". chato chato chato.
Vitória não se importava com nada disso. aliás, nem enxergar Vitória enxergava esses comportamentos desagradáveis. ela apenas amava o xarope como ele era, assim, todo xarope. porque ao contrário de mim e de você, ela via características nele que a deixavam animada nos dias cinzentos e reconhecia que o xarope tinha um potencial forte para fazê-la feliz. porque era carinhoso, a tratava com respeito e dizia aos quatro ventos que Vitória seria a mãe de seus filhos.
talvez Vitória não estivesse tão cega de amor assim. no fundinho, torcia para que, quando viessem as crianças, elas não puxassem o genzinho de xaropice do futuro marido. mas caso puxassem o pai, ela os amaria mesmo assim, xaropes e tudo. porque ninguém é perfeito, ao contrário do que muita gente exige por aí.
 
Segunda-feira, Dezembro 19, 2005
 

a partir de que específico momento, de que exato segundo, o cara que te ama começa a te odiar?

a primeira resposta que ocorre em 89% da população é: "quando você o trai". certo, esta é uma boa resposta, mas não é a correta. então vamos pensar mais um pouquinho, o que faz uma pessoa que te ama, que quer casar com você, começar a te odiar? os outros 11% da população é menos óbvia e diz: "vai ver que o cara é um frustrado e se revoltou porque você não dá carinho suficiente". também é uma hipótese baseada na realidade, mas não é isso.

certo, vamos pensar melhor então. eu pergunto novamente aos 89% da população porque um homem que te ama começa a te odiar. desta vez, o pessoal demora mais e acaba respondendo com outra pergunta. com várias, na verdade:

- mas espera aí, a mulher que ele ama é uma boa namorada?
- depende como vocês definem isso.
- mmm... ela é ciumenta?
- não.
- proíbe o cara de sair com os amigos?
- não.
- dá chiliquinho de "você não me ama"?
- não.
- aceita fazer coisas que não gosta, mas que o namorado gosta, só pra fazer companhia a ele?
- que tipo de coisas?
- ir a um show de uma banda de rock, por exemplo, em outra cidade. uma banda cuja música ela não goste e ele adore.
- claro.
- ela valoriza o dons do cara e o incentiva?
- que tipo de dons?
- ah, se ele tocar guitarra, por exemplo.
- sim.
- ela sabe cozinhar?
- não.
- mas está disposta a aprender?
- sim. tudo por ele.

a conclusão dos 89% é que a garota em questão é uma boa namorada. por isso continuam intrigados a respeito do motivo que o cara que ama a moça considerou na hora de começar a odiá-la. pedem mais tempo para pensar. então os 11% levantam a mão e começam a pular, ansiosos, indicando que tinham uma possível resposta certa: "bom, a garota pelo jeito é uma boa namorada" - como sempre, os 11% dando um banho de percepção - "então só pode ser uma coisa: a garota ameaçou alguém da família dele de morte". faz sentido, mas infelizmente não é a resposta correta.

então os 100% gritam juntos "CHEGA, FALA O QUE É", jogando os braços para cima, enfurecidos, de saco cheio de pensarem em respostas e mais respostas, sem chegarem a nenhuma correta. então você diz: "bom, um homem que te ama passa a te odiar quando você argumenta demais no relacionamento. quando você não pensa como ele e tenta mostrar outros lados da situação para o cara entender que às vezes, ele está cego em relação a outras possibilidades e pode estar sendo injusto ou perdendo uma alternativa melhor ao problema".

os 100% riem e saem debochando. Antes de sumir no final do horizonte, 1% vira e grita: "manda ele namorar com uma árvore então. argumenta demais... que desculpa esfarrapada". e somem, achando que tinham participado de uma pegadinha. na verdade, eles tinham participado da minha vida.
 
Sexta-feira, Novembro 18, 2005
 
Te espreguiças menos que sorrirás mais.

quando você começa a namorar, as primeiras crises e encrenquinhas costumam te apavorar. porque te ocorre que se estão brigando já no início do namoro é porque não vai dar certo. logo em seguida, você, com sua tendência ao comodismo e ao conformismo (coisas do homo sapiens), pensa em terminar. a sua cabeça é coberta por uma colcha formada por retalhos que dizem: "eu sou nova, eu não tenho que agüentar isso" e "se eu terminar agora, talvez eu sofra menos do que se esperar mais tempo" ou ainda "é melhor terminar de uma vez mesmo, eu não estou gostando de como as coisas estão indo".

isso tudo é bem ridículo, se você pensar bem. a verdade é que não passamos de seres problemáticos e cagões. tudo que nós fazemos pela primeira vez queremos largar assim que aparece a minha primeira dificuldade. por quê? porque é a primeira vez, oras. é um desafio, é inesperado, exige de você e do seu cérebro. e como nós homo sapiens facilmente desistimos de qualquer coisa, em namoros não é diferente. diante das crises, você passa a pensar em terminar o namoro na mesma freqüência em que sente fome. aquilo passa a ser natural e você recorre a esse pensamento sempre que sente que está sendo magoado.

e esse negócio de ser humano acomodado, conformista, cagão e problemático não é privilégio meu. todo mundo é assim. mas existe um outro lado da nossa existência que é muito bacana. quando você ama, fica disposto, por mais preguiçoso que você seja. você se sente disposto a tentar de novo de novo e de novo. porque de pano de fundo daquela briga está um sentimento bem legal, que foi o que os uniu no princípio. e é pra esse sentimento que você deve dar ouvidos. pô, parou com essa putaria de querer terminar! assume o negócio e toca pra frente! você não desiste de assistir um programa de TV só porque a imagem está ruim, certo? você fica lá, que nem louco, tentando sintonizar. normalmente você consegue. e se não consegue, chama um técnico.

conclusão? enquanto houver amor, haverá dor e haverá... perseverança. não rimou, mas a mensagem você captou. é isso aí. beijos da Gaby. :)
 
Quarta-feira, Novembro 09, 2005
 
Pitacos

fomos ao bar do Zezito, conhecido como Zezito's Bar, comer pão com bife. o prato não é lá muito requintado, mas o do Zezito's, afe. perfeição. eu, meu pai e meu irmão. sentamos e começamos a conversar. e bar tem aquela atmosfera, né... um negócio que normalmente te toma. não dá dois minutos, você começa a filosofar aquela filosofia barata, de 1,99. a conversa no momento em que eu dava um mordida emprestada do pão com bife do meu pai, era relacionamentos. o meu irmão estava comentando algo do namoro dele, falando de coisas que ele e a namorada já passaram, blá blá blá, até que eu disse: "por isso que eu vou casar". os dois me olharam estarrecidérrimos. então começaram os bombardeios de argumento (acho que se eu tivesse dito que estava me drogando, teria recebido um retorno mais positivo).

- você diz isso porque está apaixonada, deixa passar a paixão aí você me fala!
- vai casar e viver do quê?
- isso é coisa daquela tua igreja!
- tem que namorar outras pessoas pra ver, não pode decidir isso já. é o teu primeiro namorado.
- você ainda não está preparada pra casar.

claro que eu não estou preparada. a vida é assim, não é? quer dizer, você nunca está preparado pra porcaria nenhuma e os eventos da vida não deixam de vir por causa disso. e sinceramente, pro meu pai, eu nunca vou estar preparada.

- nãããão, claro que não, eu saberei quando você estiver. afinal, eu sou bem flexível pra essas coisas.

mas de qualquer forma, ninguém estava dizendo ali que ia casar amanhã, só estava dizendo que ia casar. afe, quanto chilique. toda vez que eu saio com o meu pai e meu irmão é esse choque de culturas. enquanto a parte da minha mãe está super contente com a minha postura (já ganhei até jogo de xícaras!), a parte do meu pai faz um esforço notável pra gorar.
analisando com cuidado, nunca ninguém considera a possibilidade de um casamento dar certo. casamento = fracasso, necessariamente, sempre, em qualquer mente. mas pô, assim como tem gente que bate o pé e diz que casamento dá errado e pronto, tem seres humanos que acreditam que o negócio pode funcionar e pronto.

meu irmão, quando ficou sabendo que eu ganhei da minha mãe um jogo de xícaras, disse indignado: "fala sério, e a mãe incentiva isso ainda!!". bem calma, mordi o meu pão com bife (e cebolinha), mastiguei e respondi: "querido, acho que você não está entendendo. com incentivo ou sem incentivo, eu vou casar. se tem gente que me apóia ou se não tem, pra mim não faz diferença. eu vou casar com o incentivo de vocês ou sem. o que você acha sobre casamento ou a sua forma de enxergar a vida não influencia nem 2% na minha opinião. eu quero casar e vou fazer de tudo pra dar certo". e fim de conversa.

nada como uma conversa de bar pra deixar as coisas bem claras. e viva o pão com bife.
 
Quinta-feira, Outubro 27, 2005
 

Ecati

sopa de fubá. adoro sopa de fubá. ontem, decidi fazer uma pra mim, só pra mim, todinha pra mim. enchi meia panelinha de água, meti a polentina, alho picado e aqueles temperos prontos com sal e alho. mexi mexi mexi, ferveu ferveu ferveu, engrossou. coloquei no prato. mmm delícia. quando eu faço algo gostoso na cozinha (fato raro pra burro), eu costumo observar atentamente o pratinho, reparando em detalhes, como o fubazinho boiando, os pedacinhos de alho, aí eu penso toda feliz "mmmm que orgulho, eu que fiz". e numa dessas observações minuciosas, eu reparo que a minha sopa está cheia de pontinhos pretos. coisinhas do tempero, eu pensei. continuo comendo. no meu segundo prato de sopa de fubá, quando estou levando a colher à boca, vejo um desses pontinhos pretos de perto. e reparo que ele tem perninhas. imediatamente corri pegar o pacote de polentina, pra ver o que estava acontecendo que havia pernas na minha sopa. eu quase caí pra trás. o pacote estava cheio de carunxo, aquele bichinho que dá em feijão.

na mesma hora começou a me dar dor de barriga.

olhei então pra panela e lá estavam milhares de gerações de carunxinhos se desintegrando na alta temperatura da minha sopa de fubá. eu queria morrer, né. além de ter matado dúzias de seres vivos, ainda os ingeri.

depois de jogar tudo fora, berrei pra minha mãe. ela riu da minha caram é lógico. disse: "aaah Gaby, não esquenta. é nutritivo". e completou: "na África eles comem aranha frita, sabia?". puxa, saber disso realmente me consolou.

aí mais tarde, liguei pro meu namorado e ele terminou de me consolar, dizendo: "hakuna matata". bom, se o pessoal do Rei Leão e a turminha da África não morreram de comer bichinhos nas refeições, tenho certeza que hei de sobreviver.
 
Sexta-feira, Outubro 21, 2005
 
é como correr e não sair do lugar. às vezes tem algo errado e você não sabe o que é. aí você quer falar, quer resolver, quer ligar pra pessoa e dizer "olha, é isso, isso e aquilo", mas você não sabe bem como colocar em frases. quer dizer, você sempre se saiu bem nessas coisas de verbalizar qualquer questão. mas agora... está apertando o peito, está te esmagando, mas você simplesmente não consegue parar um minuto e prestar atenção no que está sentindo. talvez seja ansiedade de resolver de uma vez. tanta pressa não te permite sequer descobrir do que se trata. é fogo, viu... é fogo porque dói pra caralho. pô, você tá amando! tudo dói! até quando você está lá, olhando nos olhos da pessoa, suspirando e imaginando como serão os seus filhos, até isso dói. e quando eu falo de dor é dor física. é como se o seu corpo não pudesse suportar tantas sensações, tantos sentimentos, tanta expectativa e deslumbre. não cabe. então volta e meia você se sente cansada, com sono, precisando de um cochilo. porque amar exige muito da gente.

e é claro, o dom para as negociações. você precisa ser um verdadeiro diplomata porque senão não sobrevive. e tudo o que você quer é resolver. você quer, do fundo do seu coração, porque você ama aquela pessoa desesperadamente. não no sentido de loucura-neurose-descontrole, mas de forma intensa. e tanto amor às vezes te deixa impotente porque, para não correr o risco de perder, você opta por engolir certas coisas, fica sem fôlego em outras, com falta de ar por causa do aperto, porém não demonstra. fica lá, com pose de quem tem pulmões melhores do que os do Gustavo Borges. dói, viu. dói pra caralho.

e você está amando, então a sua capacidade de avaliação está prejudicada. você não sabe distinguir quando está descontente com alguma situação porque está inseguro, porque está carente ou porque está com a razão. é como procurar pino de óculos em sujeira de ralo. é tanto sentimento... então, considerando este contexto, como você vai chegar e falar algo que você nem sabe o que é direito? como vai arriscar se indispor com a pessoa que você ama por bobeira?

dói, viu. dói pra caralho.

mas eu não troco a vida de namorada pela de solteira nem matando.
 
Quarta-feira, Outubro 05, 2005
 
bate um cafona no peito

a vida era sem gracinha
tipo blusa cor de telha
amigas todas comprometidas
bando de fedelha!

tá, vai, admite
você andava nada confiante
homens sem diferenciais
era um negócio abundante

"tem que sair mais de casa", todo mundo falava
balada, festa, barzinho, barzão
como se caçar homem de saia curta
fosse realmente a solução

quando você já havia desistido
e pensado em virar freira um dia
conheceu um príncipe da Disney
que não te deixou ficar pra titia

ele chegou todo cheiroso
de um jeito bem discretinho
você admite que quase morreu
com o cabelo jogadinho

reparando um pouco mais
percebeu que ele faz biquinho
na hora de falar palavras
como "chuchu" e "danoninho"

"ei, mas espera um minuto
não quero só o beiço carnudo
quero mesmo é saber do mocinho
se ele tem algum conteúdo"

já nas primeiras conversas
viu que a afinidade era boa
antes de te enxergar como mulher
se interessou pela sua pessoa

hoje estão apaixonados
têm planos de se casar
afinal, princípes da Disney
quando você vê, tem que agarrar

esperar pelo cara certo
é muito muito difícil
tem que ter fé em Deus
pra não ir parar num hospício

mas valeu a pena esperar
o mocinho tem impressionado
além de ser especial
dá conta do recado
 
Segunda-feira, Setembro 26, 2005
 

sendo assim, eu me rendo

bom, regime já foi pras cucuias, né, não precisa nem dizer. eu estava engajadíssima numa dietona ninja, fazendo só aquelas refeições-Somália. uma coisa terrível, mas que andava me trazendo bons resultados. aí eu entrei na academia, o que alavancou o meu sucesso no que diz respeito a emagrecimento. tudo indo as mil maravilhas.

até que eu me lembrei que regimes me fazem infeliz (porque em algum momento eu vou querer comer algo gostoso e não só leguminosas e folhas) e que eu ODEIO academia. eu odeio. eu odeio ficar em cima daquela esteira por quase uma hora, andando e andando, sentindo que eu poderia usar todos aqueles passos para chegar efetivamente a algum lugar. e na minha frente, uma televisão ligada constantemente na Globo. e no meu horário de atividade física, o que está passando? novela. lógico. só porque eu não suporto novela. aí eu tenho que ficar lá, assistindo aquela bendita novela da índia loira, que é a reencarnação de alguma sinhá, porque a TV está instalada bem na minha fuça e se eu desviar o rosto, me desequilibro e caio de cara no chão, já que eu tenho sérios problemas para me equilibrar naquela esteira. é um cenário realmente desestimulante.

aí teve o dia da aula de aeróbica. uma professora completamente maloqueira, que estava mais preocupada em ficar com a bunda virada pros alunos do que orientar o pessoal a fazer certinho os exercícios. era a minha primeira aula, por isso, é óbvio que eu não fazia aquele bando de malabarismo com excelência. pelo contrário, eu estava toda perdida, fazendo tudo torto, descoordenada. a professora não foi capaz de me passar UMA orientaçãozinha. nada. nem um "não esquenta, logo você pega". nada de nada. a minha amiga, que estava me acompanhando na aula, comentou: "Puxa, aquela assistência aqui, hein". eu ri. desgostosa da vida.

depois eu fiquei olhando aquele bando de menina magra se empenhando nos aparelhos e pensei que se eu fosse magra daquele jeito, jamais estaria presa numa academia queimando os poucos carboidratos do meu corpo naquelas atividades horripilantes. eu estaria andando de patins, vendo Sessão da Tarde, desenhando mangá, sei lá, qualquer outra coisa mais divertida.

o negócio é voltar para as dietas somalianas. porque academia... seeeem condições.
 
Sábado, Setembro 10, 2005
 


O amor é um bichinho que rói rói rói

tá vai, eu assumo! eu assumo! o meu namorado viajou faz apenas um dia e meio e eu estou com muitas saudades dele! eu sei, é pouco e eu deveria estar envergonhada por agüentar tão pouquinho. eu sou uma oefnsa para a minha classe. as namoradas de todo o país teriam vergonha do meu desempenho. fala sério, eu sou uma maricas. ontem, eu parecia um trecho daqueles filminhos bem xinfrins da Sessão da Tarde, em que a menina fica na janela, olhando a chuva cair, pensando em como a vida é sem graça sem o minino dela. ai, o minino o minino o minino *suspiros*. bom, ontem não choveu e eu não fiquei sentada na janela olhando pelo vidro, mas eu tinha que viver, certo? trabalhar, pegar ônibus, fazer academia... e sinceramente, eu não estava com vontade de fazer nenhum tipo de atividade. por quê? porque a frouxa aqui não consegue ficar um dia longe do namorado que já fica toda tristinha. aaaah por favor! eu tenho que ser mais macha nessas horas. poxa, as pessoas viajam, é normal, faz parte da vida. qual é a dificuldade em lidar com isso? eu até posso ouvir o coro dentro da minha consciência berrando MANEZONA, MANEZONA, MANEZONA.

claro que eu posso sobreviver cinco dias longe do meu minino sem precisar tomar anti-depressivos. por favor, é lógico. mas sá comé né, Gaby anda meio que deixando a desejar na questão retenção-de-sentimentos (homenagem a Izabellinha, que já reteu cartões e outras coisas em sua vida e odiou a experiência). eu nunca pude demonstrar 100% o que eu sinto porque nunca me apaixonei por um ser vivente que correspondeu. sempre foi um negócio unilateral. agora que estou amando e sendo amada (e escrevendo poemas que rimam "champagne" com "me arranhe"), eu liberei geral. tô brega mesmo, tô cafona mesmo, tô melosa mesmo, tô sensível mesmo. e tô bem maricas também.

aaah gente, dá um desconto. pô, ele foi pra outro estado! é longe!

 
Quinta-feira, Setembro 08, 2005
 
Embagulhadinha básica

tudo começou com umas dores de cabeça alienígenas. eu nunca tenho dores de cabeça. nunca. aliás, é difícil eu ter dores, de maneira geral. em seguida, veio a dor estranha no braço. eu nunca tenho dores no braço. nunca. agora, eu tenho duas dores: uma na cabeça e outra no braço. as duas constantes, daquelas que latejam e te deixam mal-humorada. na verdade, eu acho que eu estou cansada. eu não sei se o cansaço provoca dores, mas quando a sua mente fica exaurida, o seu corpo acaba manifestando isso também. é o meu trabalho que anda me consumindo. eu sempre fui CDF nas coisas que eu faço. sempre. daquelas que caprciham, que trabalham felizes sob pressão, que gostam de ser cobradas. eu sempre fui assim. e sempre fiz questão de trabalhar direitinho, fechar minhas matérias aqui na rádio com esmero, nã nã nã... mas eu ando tão cansada, que estou deixando matérias acumularem, tipo "ai, essa aqui eu fecho amanhã", estou fazendo textos nas coxas, pra terminar de uma vez, estou perdendo entrevistas... nesta terça-feira eu fui em um café da manhã com representantes da Alemanha, aquelas coisas de consulado, em que eles falariam sobre os preparativos daquele país pra Copa 2006. matéria importante, tal, quer dizer, é Copa né, muitos dados, número de ingressos, expectativa do mercado de turismo alemão... como eu cheguei do tal do café meio tarde (na verdade, era um 'brunch' pra imprensa), guardei a fita K7 com a entrevista da mulher da Alemanha na minha bolsa pra fechar a matéria hoje de manhã, quando eu chegasse na redação. meu, não é que eu perdi a fita? eu já cheguei atrasada no trabalho por causa do toró absurdo que caiu hoje de manhã (se bem que eu ando chegando atrasada quase todo dia), ainda por cima vou lá e perco a fita! gente, que relaxada que eu ando! como que eu perco o material com a entrevista?? totalmente irresponsável. a verdade é que eu estou tão cansada, mas tão cansada, que não estou conseguindo mais me organizar. no programa da tarde da tarde é pior, porque as cagadas saem ao vivo. algo que anda acontecendo: eu troco os nomes das músicas na hora de anunciar o que vai tocar. "Vocês ficam agora com Benjor, em Os alpinistas estão chegando", sendo que o nome da música é Os ALQUIMISTAS estão chegando. aí enquanto toca o bloco, eu cochilo na mesa. quando as músicas acabam, o operador abre o microfone pra eu dizer as músicas que tocaram. aí eu acordo de sopetão, gaguejo e leio tudo errado... afe. somado a isso, vem as duas dores estranhas que eu ando sentindo no braço e na cabeça. às vezes me dá umas tonturinhas, que eu tenho que me segurar nas paredes. afe. eu preciso de férias. e de um médico. eu estou muito bagação. eu não agüento mais ficar cansada. eu quero ficar disposta, meu Deus, ter vontade de fazer as coisas, em vez de ficar só pensando em dormir e ficar em casa. a gente começa a trabalhar muito e vai ficando com jeito de gente velha, que não quer sair. e poxa, eu quero ser uma namorada legal também, né. não tem nada mais xarope do que gente que só fica reclamando que tá com sono, que está cansado, que quer dormir... eu não quero me tornar uma namorada assim, meio velha. ai, eu preciso de férias. uaaaah.
 
Sexta-feira, Agosto 05, 2005
 
Porque, do nada, fica tudo cafona

então é assim. você é uma pessoa, digamos, individual-independente-solo, certo. você é solteira e se preocupa só com você. certo? quer dizer, no máximo você dá lá uma satisfaçãozinha ou outra pra sua mãe, pro seu pai, algo como "esse final de semana vou ter que viajar por causa do trabalho" e bêêêjo tchau. nada assim muito significativo. aí você conhece alguém. até a frase já soa cafoninha. estilinho filme da sessão da tarde: "pai, mãe, eu conheci alguém e vamos nos casar". sinceramente, você nunca acreditou nesse negócio de namoros. quer dizer, você sabia que eles existiam, afinal os casais estão por todas as partes, mas você, no fundo no fundo, duvidava que podia acontecer com você. não que você quisesse se transformar numa daquelas pessoas azedas, velhas e cheias de gastrite, mal-amadas, que nunca dividiram um saquinho de amendoin com um cara fofinho, que nunca suspiraram olhando pro teto, que nunca proferiram a frase: "pai, mãe, eu conheci alguém". não era o caso. mas sei lá, namoro pra você sempre foi algo meio empata-progresso. porque você sempre ouvia aquela sua amiga dizer "ai, não posso ir, o Fulano não deixa" ou "ai, não quero mais viver, quero só ficar em função do meu namorado". como assim, minha filha?? aí o negócio meio que ficou com cara de chatice pra você. namoro = atraso de vida.

até que... até que....
até que VOCÊ começa a namorar.deixa eu adivinhar. você viu que não é nada disso.

até agora você está tentando entender como pode você se importar tanto com alguém, pensar tanto em alguém e (atenção, porque aí é que entra a grande novidade) gostar tanto de alguém. agora é 4 de agosto de 2005, exatamente 15h21. não faz nem 24 horas que eu vi o meu namorado. e eu não estou suportando de saudades. quer dizer, como isso é possível? como pode a gente querer ficar tanto com alguém? mas não é simplesmente passar tempo com a pessoa. é ficar perto dela, é sentir o cheiro dela, é ouvir o que ela tem a dizer, pegar no cabelo, é falar absolutamente nada. meu Deus, como pode? e se despedir no portão de casa é pior do que... do que se alguém tivesse roubado o seu rim após ter te drogado com uma bebida em um bar clandestino. é pior do que cutícula inflamada e do que chutar a quina da mesa de vidro com o seu dedão num dia de frio. você jura, por uns momentos, que não vai sobreviver. aí ele te fala: "calma, só mais uma horinhas". senhor amado, é um exagero. é muito exagero. como pode? aí você tenta pensar que é uma pessoa razoavelmente controlada e que, se quiser exercer com qualidade o papel de namorada, vai ter que segurar o tchan. ai meu Deus... mas dá vontade de sair gritando! de parar tudo e sair correndo encontrar com a pessoa e ficar de mãos dadas só um pouquinho, beijar só uma vez e abraçar uns minutinhos, ai deixa deixa deixa. ai ai. bom, o negócio é ter auto-controle (tem hífen aqui?), respirar, mentalizar que você precisa viver-trabalhar-comer-fazer xixi-ser filha,irmã,amiga também, não só namorada. você precisa acreditar nisso, senão desmaia de saudades do chuchu.

mas também... o que que eu sei dessas coisas? eu sou namorada de alguém há apenas vinte e uma horas.
 
Quarta-feira, Julho 20, 2005
 
Cala-te e cuida-te

a gente tende a acreditar que o melhor sempre é manifestar e verbalizar sensações e sentimentos. na verdade, não é só uma tendência. a gente sempre quer falar. de preferência, o tempo todo. nessas que a gente resolve coisas, deixa pessoas sem jeito por causa da bandeja que expusemos de questões mal-resolvidas, irrita outras porque nem sempre os sentimentos saem do jeito mais maduro do mundo, aí rola uns arrependimentos... não importa. o negócio é que a gente sempre quer colocar conteúdos pra fora.
mas de vez em quando, é menos doidinho mantê-los lá dentro. talvez nem sempre seja o caso de você resolver com explicações a terceiros, quartos, quintos, às vezes até sextos, diálogos e análises e debates em família, quarenta mil telefonemas a diversos amigos para perguntar opiniões; de vez em quando, é melhor você ficar quietinho, no seu canto, vendo aquilo tudo passar, engolindo a tristezinha, mesmo que você esteja indignado com o desrespeito de um(a) determinado(a) infeliz que, entre um sorrisinho e outro, 1) faz piadinhas idiotas sobre alguma desilusão que você passou ou, pior, 2) tenta tirar proveito da sua desgraça para subir na vida. aí você pensa "puxa, que gente inescrupulosa, que gente sem noção, que... que... horrível!". não... amigos fazem isso às vezes. primos fazem isso às vezes. a sua mãe pode fazer isso às vezes.
não que, por ser normal, doa menos passar por esses eventos. afinal, a vida é cheia daqueles momentos em que as coisas fogem do seu controle e você pode fazer nada, a não ser assistir e torcer para passar de uma vez. e em cada um deles, dói de um jeitinho especial, de um jeitinho novo. inclusive, com o tempo, o sofrimento vai ficando até mais sofisticado, com um arzinho de seriado americano, com vários envolvidos e tramas complexas.
sendo menos otimista e poética, dói pra caralho ficar quieto. claro que dói, como não iria? mas sei lá, falar, ao mesmo tempo que é uma beleza às vezes, pode ser uma merda em outras. porque você colocou na roda, sujeito a avaliações da opinião pública. e sempre tem aquele infelizinho que sabe que você está penando pra esquecer o seu ex-namorado e não pode perder a chance de dar uma pisadinha e dizer: "sabe que o Fulano veio conversar comigo hoje? nem perguntou de você". e ainda tem a cara de pau de soltar a última parte da frase com um "que bom, né?" imbutido, como se tivesse soltado aquela informação pra te dar um apoio moral, pra te dar aquela força, mostrando o quanto vai ser fácil esquecê-lo agora que ele já esqueceu de você.
ai ai. é assim mesmo. falar nem sempre adianta. de vez em quando é só um impulso burro que a gente tem a mania de entender como desabafo. quanta coisa eu teria me poupado de passar se tivesse calado essa minha boca.
 
Domingo, Julho 17, 2005
 
eu quero esconder uma coisa de você. eu quero esconder que você me irrita quando dá uma de personalidade forte. quando finge que a vida pra você tanto faz e que o que vier é lucro. eu jamais vou te contar o quanto essa sua pose de galã da night me dá nos nervos. sabe por quê? porque eu sei que é tudo mentira. você é uma farsa. um moleque gracinha que se engana ao pensar que é homem. você é porcaria nenhuma. você é porcaria alguma. que todo fofo o que! que todo amorzinho o que! você é um terrorista sentimental. você é um kamikaze do relacionamento humano. porque você começa fingindo, fazendo panca, dando uma de gostoso, e não consegue sustentar a mentira. dá um tiro no próprio pé. é patético porque todo mundo acredita. vai, admite, no fundo você está se cagando de medo. você tem medo da vida, já digo. porque não sabe lidar com 89% dos eventos que a formam. ainda mais quando o assunto é mulher. nossa, aí você corre pro colo da mamãe. ou pro colo dos seus amigos. e fica lá, dependendo da opinião deles pra tomar uma atitude. de todo mundo eu quero esconder que já te achei importante. que já te quis. que me deslumbrei e atropelei minha capacidade de avaliação. nada como um balde de água fria para alertar o gato que estava superando o escaldo.




Luciana Trintão! me manda um email que eu fui tentar te mandar um, voltou!
 
Segunda-feira, Julho 04, 2005
 

Rá-rá-rá

Dá pra achar que é uma piada tranqüilamente. Dá pra achar, de verdade.
Vai, francamente, eu nunca tive a auto-estima lá em cima. Quer dizer, eu sempre me achei uma mulher razoável – nem deslumbrante, nem horrenda. Mas claro, como eu era sem semancol, sempre desejei me casar com um Russell Crowe ou com um Robert De Niro. Na prática, na prática mesmo, eu sou mais humilde. Sempre curti os caras que, entre quarenta brasileiras pesquisadas, só uma o achava bonito. E essa uma era eu. Normal, é o cérebro do indivíduo que conta. Às vezes acontecia de eu me apaixonar por um cara que todo mundo achava lindo, mas estes eram casos chamados delicadíssimos porque normalmente eu não sabia bem como lidar e acabava melando tudo. Mas isso foi antes de eu fazer terapia. O que mudou de lá pra cá? É que agora eu me gosto mais. O suficiente para não me contentar com pouco.

Enfim, deixa o blá blá blá de divã pra lá. Vamos ao ponto.

O ponto é que existe o fotógrafo deus-grego, certo. Aquele, de conteúdo duvidoso. Ele sempre foi um exemplo de vida masculina, ele era a testosterona viva, o testemunho de que existem sim homens com uma única finalidade neste mundo: serem objetos de desejo. Em palavras mais rústicas, eu sempre babei no cara. O que, cria eu, era inerente ao meu ser.

Até que eu me apaixonei por um jaguarinha.

Deixa eu te contar do jaguarinha. Nós realmente tínhamos diálogos. Até os climinhas surgiam em meio às conversas, nada de silêncio constragedor. O papo em sua mais real essência. Falar pra gente era moleza. Fluía que nem suco.
E eu era simplesmente apaixonada pelas idéias dele. O jeito dele de lidar com os eventos da vida me hipnotizava. A todo o momento, ele me surpreendia porque quando eu jurava que o estoque de coisas legais a dizer que ele tinha havia se encerrado, o jaguarinha ia lá e soltava mais uma frase incrível, que eu não estava esperando. E me surpreendia de novo. Ele chegava a me surpreender até dez vezes em um mesmo dia. Era tanta informação pra mim... Quer dizer, como Deus podia ter produzido uma criatura tão lindamente humana, tão absurdamente original e criativa, tão... Diferente de mim? Era elucidativo estar com ele. Porque o mundo ficava tão bonitinho e o relógio tão ligeiro e, ai, como tudo era mais cafona e gracinha com ele por perto. Eu, que sempre achei que homens de verdade eram os fotógrafos sarados, os atores de cinema, os caras a lá paixão nacional, tomei nos zóio. Pra mim, não tinha mais modelo de revista que batesse o jaguara.

Aí, um belo dia, ele não quis mais passar tempo comigo. Perdeu o interesse por mim e pelo o que a gente tinha. Foi foda. Eu nunca imaginei que seria tão doído. Foi como se tivesse que enfiar o dedo com um corte na carne viva dentro de um copo com álcool. Foi como tirar os quatro dentes do siso três vezes seguidas. Foi como prender o dedo na porta. Me arrancou um pedaço. Me arrancou quatorze pedaços.

Agora deixa eu te falar o pior: três dias depois, o fotógrafo se apaixonou por mim. Criou uma obsessão bizarra pela minha região do botão da calça e passou a fazer coisas esquisitíssimas para se aproximar de mim. De repente, o cara que eu achava o Ricky Martin versão-heterossexual, agora estava assim, apagado, meio murchinho, desbundado até. Eu não via mais absolutamente nada nele. Foi como se Deus estivesse dizendo "a novidade da beleza passa. E depois, o que te mantém apaixonada?". Eu te digo o que me mantém apaixonada: o jaguarinha. E as surpresas dele. E as idéias dele. E o jeito bobo dele de falar, de sorrir. Eu só queria o jaguarinha. O fotógrafo eu queria chutar. Simplesmente porque ele não dava conta do meu recado, mesmo com todos aqueles músculos e roupas caras.

Tanto tempo eu levei para entender que beleza do tipo padrão não põe mesa. A não ser que você seja modelo.

A idéia aqui não é ser piegas ou transmitir a moral da história. A idéia aqui é contar como eu senti na época de ter perdido o cara mais incrível que eu já tinha conhecido. Ele me trocou por outras idéias e outro estilo de vida. Estilo esse em que não tinha espaço para mim. Puxa, eu o teria feito feliz. Pelo menos, teria me esforçado muito para isso. Mas só porque ele me fazia feliz primeiro.

Eu penso nele às vezes.
Aquela múmia do fotógrafo continua me perseguindo. As mulheres com quem convivo me questionam o tempo todo sobre como eu tenho a capacidade de dispensar um homem como ele e blá blá blá... Ai ai... Como explicar para mulheres assim o que é gostar de verdade, sendo que elas nunca tiveram essa experiência de se apaixonar por alguém e não por um pacote? Como falar de um jaguarinha como o que eu conheci para estas que nunca tiveram o privilégio de terem um em suas vidas? Dá pra achar que é uma piada tranqüilamente. Dá pra achar, de verdade. Mas francamente, não tem a menor graça.
 
Sábado, Junho 25, 2005
 

A verdadeira técnica de entrevista

deixa eu te contar o que eles não ensinam na faculdade. pauta. pauta é um papel em que supostamente deveriam constar milhares de informações a respeito do assunto sobre o qual você vai escrever na sua matéria, deveria conter um direcionamento, tipo "matéria sobre o dólar; aproveitamos e falamos mal da política cambial brasileira", sugestões de perguntas para o entrevistado, entre outros itens. normalmente não tem nada disso. claro, nem sempre, existem pautas completas, não vamos ser injustos também. mas na maioria das vezes, é aquele negócio estilinho redação de jornal em filmes da sessão da tarde: "prédio caiu! corre pra lá!". você chega no local e descobre tudo por lá mesmo. vai falar com bombeiros, polícia, cidadãos que estavam por ali quando o andaime veio abaixo pra arrancar informações. "como foi? já sabem por que o prédio caiu? que horas foi? alguém ficou ferido? quantos escaparam?".

porém existem dias em que o negócio está parado e não há registro de nenhum prédio caindo. nesses casos, você ouve algo como "vai ter o lançamento de um programa municipal para ajudar os fabricantes de mola de lapiseira. eu não sei o que é direito. vai pra lá e fecha matéria". noooormal.

o que também não te ensinam é que não basta você ter os telefones do entrevistado, o nome dele completo e a entrevista marcada para um determinado horário. o cara tem que querer falar. é ridículo, mas muitas vezes o pessoal da pauta entre em contato com o cara, marca entrevista, fala que o repórter vai ligar (se for de rádio) ou vai até lá (se for de TV) tal hora e tal minuto, o cara aceita falar, mas na hora que o repórter liga... é coice. um atrás do outro. entrevistado azedo é o que há. te trata mal, conversa com você como se você trabalhasse numa clínica de aborto, responde tudo de qualquer jeito e no final, quando você diz "obrigado Seu Fulano, a gravação ficou...", ele te interrompe: "o que?? já tava gravando?? eu não sabia! vamos fazer de novo!". aí nessa vez, ele é incrivelmente simpático, incrivelmente articulado e incrivelmente solícito.

e sempre tem aquele entrevistadinho engraçadinho que adora jogar cantadinha pra repórter. aí em vez de passar dados sobre o assunto, ele fica fazendo piadinhas sobre o seu cabelo ou sobre a sua pele, que é fabulosa, e diz que a sua voz é de veludo e pergunta até que horas você vai trabalhar. e esse negócio de "fácil, é só agir profissionalmente, que o cara entende que você está ali trabalhando" nem sempre funciona. tem joselito que é insistente.

e o cara que quer as perguntas previamente, pra poder estudar o assunto e só depois dar a entrevista? a sua matéria é sobre alfaces roxas que nascem em vitórias-régia e o sujeito é técnico em alfaces roxas, com especialização nas que nascem em vitórias-régia. aí você telefona pro indivíduo e ele diz: "puxa, mas o que você vai me perguntar? vai que eu não sei responder". ¬¬

e tem aquele jaguarinha que nunca deu entrevista na vida. um funcionário de um laboratório de exames encontrou nas coisas de um outro funcionário uma caixa de isopor com órgãos humanos. isso é matéria. você vai entrevistar o tiozinho, mas tem que ensinar como ele deve fazer.
- como o senhor encontrou os õrgãos?
- ah, eu tropecei na caixa.
- tropeçou. e depois?
- aí a caixa caiu.
- caiu...
- é.
- caiu e o que houve em seguida?
- caiu e abriu.
- aí o senhor viu os órgãos?
- não, ainda não. eles estavam num plástico preto.
- então como o senhor descobriu que eram órgãos humanos?
- porque aí eu vi o saco e achei estranho.
- e fez o que?
- ah, abri.
- e daí, o que o senhor fez?

AAAAA! é de deixar maluco.

e como a vida é feita de extremos, existem aqueles seres humanos que falam demais. você precisa de uma palavrinha daquele secretário de saúde sobre a campanha de vacinação contra gripe. e o cara, empolgadíssimo que está dando um entrevista, fala meia-hora. na segunda pergunta, você já solta o famoso "secretário, de forma resumida, como vai funcionar a campanha?". aí no meio da entrevista, ele resolve discorrer sobre a situação precária em que vivem os pacientes dos hospitais da Mongólia, fazendo, claro, um paralelo com a campanha de vacinação da cidade. isso quando o sujeito não é bafento. você começa a entrevista há uns cinqüenta centímetros do cara. quando vê, está com o braço esticado no máximo, com o rosto recolhido e virado para a sua esquerda, pra fugir da fumaça verde que está saindo da boca do ser vivo.

junto com os bafentos, estão os que cospem. você termina a entrevista, o seu gravador está enxarcado e o seu casaco repleto de perdigotos que o homem, de forma descontrolada, lançou em sua direção.

na faculdade, você também ouve falar em enquete. é importante colocar a população pra falar sobre temas de interesse nacional, como salário de deputado, aumento da gasolina, clássicos de futebol. tudo bem. mas que população é essa que fala? porque sinceramente, a que o repórter tem que entrevistar todo dia, nunca quer falar. sempre tem vergonha, dificilmente sabe responder frases que vão além do "porque sim" e do "ah com certeza". é frustrante.

sobre o jornalismo ser imparcial... bom, esse eu não preciso nem comentar, não é.
 
Sábado, Junho 11, 2005
 

E a padaria foi pra chón

Dia normal de pauta jornalística. Assinatura de convênio do governo do estado com municípios da região metropolitana. Lá estava a repórter Gabriela, com seu gravadorzinho numa das mãos, acompanhado do bloquinho e da caneta e, claro, dos cabelos desgranhados, já que passava das onze e meia da manhã. Chega esse horário, o cabelo desgranha mesmo porque você passou a manhã correndo com as suas matérias, pautas e entrevistados, pensando e elaborando, escrevendo, puxando ganchos nas reportagens, até que = fadiga. E sinceramente, não há lápis de olho nem cachos nem expressão de saúde que resista. Porque jornalista trabalha só um período do dia, mas é como se a manhã e a tarde tivessem, cada uma, 24 horas.
A pauta do governo era a última do meu dia. Eu estava podre. Minhas pernas pareciam ser feitas de patê, minha capacidade de me manter em pé era a mesma de um fio dental e a minha disposição remetia a de um desdentado tentando comer palmito. Deprimente. Em alguns momentos até tive sucesso, nas perguntas que fiz a alguns prefeitos e tal, mas nada realmente digno de se ressaltar. Eu estava entregando os pontos.
Ao contrário do que o meu pessimismo fazia eu pensar, a cerimônia finalmente terminou. No momento em que estava saindo, acompanhada de duas colegas de trabalho, um fotógrafo zé-graça do palácio começou a se alugar, tirando foto de nós três caminhando pelos largos corredores de piso estilo tabuleiro de xadrez. Eu fiz careta, coloquei a mão na boca, pedi pra não tirar, mas o cara estava realmente afim de azucrinar. Tá, o negócio foi tocar a vida e aceitar que, naquela câmera, estavam registrados para a posteridade vários dos meus piores momentos de vida e não havia nada que eu pudesse fazer.
Me despedi e segui em frente, em direção a escadaria do palácio que dava para a saída. Uma escadaria enorme de mármore branco, coisa de filme. Eu adorava olhar para aquela escada. Parecia que ela tinha luz própria. Comecei a descer, meio sonolenta, até que minhas pernas de patê me traíram e eu caí de bunda. Como se não bastasse a minha padaria ir bruscamente de encontro com o mármore, eu desci uns dois ou três degraus com o meu traseiro. De repente, ouvi aqueles gritos. Uma outra colega minha, repórter de TV, veio aos berros lá de cima, "Gaby-tá-tudo-bem-Gaby-tá-tudo-bem???". Quando a queda finalmente acabou, eu fiquei lá sentada, olhando pros outros degraus pra onde eu felizmente não rolei, pensando "puxa, acho que hoje não é mesmo o meu dia". Enquanto isso, a minha colega berrava do meu lado, "Gaby-Gaby-fala-comigo-Gaby-gente-me-ajuda-aqui-ela-não-tá-bem!!!". Eu ri do jeito dela, falei que tava ótima, que, querendo ou não, a minha bunda tinha amaciado a queda e que a gente podia continuar caminhando.
Hoje eu não estou conseguindo sentar direito, mas, como diz o meu amigo Ricardo, vai que vai. A gente administra. Afinal, ninguém precisa sentar o teeeeempo todo. Ai ai, que dia estranho.

Adendo: dizem que dia dos namorados é data comercial. Mas quem não queria dividir um saquinho de amendoim no Parque Barigüi no 12 de junho? Eu? Eu não. Eu só estou aqui escrevendo esse texto.
 
Em 100% das vezes em que perguntam meu nome e eu digo que é Gabriela, ouço um “Gabriela? Cravo e canela?”, seguido de uma risada. E todas estas pessoas realmente acreditam que a piadinha é super original. Se eu te chamar de jaguara é porque gosto de você. Jesus é tudo pra mim.

Nome: Gaby
Local: Brazil

Anos se passaram, Gaby é jornalista formada, locutora de rádio, e continua molhando o pão no Nescau. Sou adepta do regime eterno, ainda tenho problemas sérios para comer de palitinho e fico levemente ofendida com a careta que as pessoas fazem quando eu conto que tenho um gato e ele se chama Xaninho. “Xaninho?? Que nome é esse?”. Um dos meus hobbies é gente esquisita. Eu adoro prestar atenção na história delas. Tenho medo do orkut. E de mariposas peludas. Ui. Eu costumo sonhar com pessoas famosas. Já sonhei que o Eminem vendia perfumes, que o Keanu Reeves estudava comigo e pegava um ônibus chamado “Vila Adidas” para voltar pra casa e que o Bon Jovi era meu melhor amigo. Eu gosto muito de torta de limão.

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